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Poeta nascido no Rio de Janeiro. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000 na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009), é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em Corte (Ibis Libris, 2004) e rio raso (Patuá, 2014). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, que teve mais de um milhão de acessos em 2012, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo e publicados em diversas revistas literárias.  (saiba +)

31/03/2013

nem Freud nem Jung

mulher
é o lugar da disputa
entre a branca de neve
e a puta

dos poemas adiados (técnicas sobre como reinventar o vento)

sente a lente do vazio
sobre teu ser

olhando inerte
teu íntimo mais público

a voz do silêncio:
sábia conselheira

ouve drummond: relê

deixa o poema ser
sem luz sem olhos sem ego
na gaveta
por prazo azedo

fortalece as bordas do poema
que não tem bordas

amadurece o poema
que não é fruta

prepara o poema pra guerra
mas não há guerra

veda o poema contra a crítica
mas, sem ar, ele morre...

adia o poema para a fama após a morte
para o livro perfeito
para o público-alvo
para o ego estelar

mas e a vida agora?

agora,
isto posto,
posto o poema atrasado

29/03/2013

oito deitado

sonhei que sonhava
e o sonho era um canto
e o canto era lindo

sob as mãos, uma viola
inventando novo ritmo
da mesma música:
o infinito

28/03/2013

sorriso em curva

vôo o ronco do motor

ruas mal iluminadas
de cidades nuas

jornais no tempo
vento estelar

o mundo é grande
e somos muitos
silêncios

bons tempos

lembro o encanto de meu avô
ouvindo rádio de pilha
na varanda

na época
os políticos só roubavam
e os sacerdotes só mentiam
(cada coisa em seu lugar)

agora é esse caos trágico:
dízimo pra eleição
e parlamentares dogmáticos

26/03/2013

olhe bem:

há um Vôo
no meio
do oVo

como a palavra

a voz só minha:
cavar o poço
do pescoço
com a palavra

Pensamento e liberdade em Espinoza - palestra de Claudio Ulpiano

letra além da linguagem
o homem sem fantasma

seguiremos atendendo telefones
abrindo e fechando portas
paredes limitando símbolos?

até quando
o campo social não passará do escritório?
o valor não ultrapassará o bolso?
o carro no engarrafamento?

conatus

a palavra canta no silêncio de cada um
ecoa força:

conatus

os encontros que trazem
lágrimas de ouro
vento solar

encontros que marcam
e por marcar criam
o que nos escraviza:
consciência individual

capital, ciência e consciência
para a família produzir alguém sem política
corpo passivo bem sucedido economicamente
t-r-a-d-i-c-i-o-n-a-l
procurando não ouvir por uma vida inteira
a palavra conatus
cada vez menos dita

a partir desta palavra
eu não mais tenho nome
a fim de que a vida comece neste planeta

sempre que silencio

minha alma lelé
lê Leminski
e eu crio

25/03/2013

marulho inconsciente

o mar trabalha
no escuro

dirijo sério
pela sua margem
ouvindo a miragem
do meu mistério

24/03/2013

ouvindo Manoel de Barros

procuro de novo nas estrelas

pontos pequenos tão longe

três marias

silêncios de luz
azul
sobre prédios ansiosos

o trânsito segue nas ruas escuras
um rio sem água
sem riso ou destino

o mundo desinventa
o fundo das garrafas pet
mas engarrafamos

dentre revoluções adiadas
e equilíbrios impossíveis
deixamos de ser
a mesma paz das árvores

23/03/2013

do fazer poético

acariciar estrelas por meio de teclas
louvar letras
coser sons
enquanto tudo se despedaça

assobio

um poema vazio
que estou cheio
de frio

20/03/2013

da educação sem ação

ela vai fazer as unhas
na tarde cinza
(a musa)

eu vejo um filme ranzinza
que me lembra nossa incapacidade institucional
de ensinar:

na era da informação
as provas futuras cobrarão
que você decore as palavras exatas
de conceitos ultrapassados

o presente não é valorizado
o presente não é presente
nem entre o giz que não há
e o quadro negro que nunca foi negro

estamos todos presos
na grade curricular
tentando provar nas provas que virão
que somos inocentes dos crimes de não saber o que querem que saibamos
quando o crime maior é ter certezas

a instituição vence a verdade, a pureza, a vontade, a beleza
com bolsos cheios
e literalidade

inspetores nos inspecionam
sob horários rígidos

mais cedo, pais
mais tarde, chefes
mais tarde, tarde demais

paredes nos moldam
desde a eternidade
ao som de fotocopiadoras a copiar
com placas invisíveis dizendo:

- É proibido criar!

19/03/2013

fim de férias

os tentáculos
do escritório
me abraçam

o que mais falta é sutileza

lustro imóvel as impossibilidades
contemplo preços e precipícios

tonto na encruzilhada
nenhuma perna se move

(não se precipite)

moldo presentes invisíveis
com arte sã e mãos de artrite

18/03/2013

alianças

medo do avô
pânico do pai
e agora minha assombração

as sombras da noite
do afeto impossível

a largura
a profundidade
da noite imprevista
imprevisível
e tão certa...

açoitam lagartos
caramujos
grilos
relógios

o som
da sombra
do escuro
contra o qual
construímos
alianças

16/03/2013

quer tc?

o poema escapa

corro parado na cadeira
a coluna meio torta
a vida meio manca
o dia com sono
a noite sem

tudo bem
e você?

13/03/2013

poetrix de constatação

se não estou fazendo um poema
ou me inspirando para fazer
estou perdendo tempo

11/03/2013

primeiro dia de aula de psicologia na universidade privada (sem aula)

cobram das massas
e as massas sofrem
mas pagam

o papel com os horários das aulas está errado
a palestra, atrasada
mas à noite não tem trote

mandam as massas
se sentarem no calor, no chão de escadas
e as massas sentam
e as massas suam
mas sentam, atentas

mosquitos me mordem
cheiro de esgoto
fico de pé, perto da porta

pedem pras massas serem modestas
cumprimentarem o desconhecido ao lado
e aplaudirem os professores coordenadores doutores palestrantes
a massa - como na missa - cumpre

eu vou pra casa

fumaça

o charuto caríssimo
é o escorbuto na sua boca,
caríssimo

dólares enrolados
por povos enrolados
em brasa

suas ilustres gargantas
ardem à meia luz
trêmulas
pela certeza íntima
da razão da revolução
em querer cortá-las

08/03/2013

constato com o tato

dom de endeusar as putas
e emputecer as deusas:
toda a minha poesia é mulher

da arte sem aplausos

escrevo sem lavar as mãos

é preciso comer o amendoim
por inteiro
dos bares sujos dos puteiros

(é preciso sim)

pois o caos dança luz
nos espelhos onde se vê
ordem e beleza

(meu olhar sorrindo Bukowski)

o infinito deitado na axila
espasmos sincrônicos de pernas pro ar
a velha caindo da mesa no velho:
tudo em seu devido lugar

06/03/2013

antes da morte

um poema
antes que caia
o sono a net a noite

antes que nos açoite
o tempo
da inspiração
virar esquecimento

02/03/2013

quando montei pela primeira vez

inda lembro o exato instante
em que o cavalo saiu da metáfora
e o mundo, abaixo de nós
abriu-se em aventura

01/03/2013

cima cima baixo baixo esquerda direita esquerda direita Y B X A

um poema travado no peito
pressa por todos os poros
não há tempo de fazer um poema
a reunião inútil dentro do trabalho inútil da vida inútil
a energia perdida azul no plexo sem tempo de mãos
arranhão street fighter lute antes de pensar
muito antes de sentir que arde
ainda antes

tarde demais
para um hadouken
ou um infarte