29/11/2015

alice

o mundo cria degenerados
que me acordam

eu outro
transmuto a dor em algo

maior
imortal

seus traços em breve serão pó
os meus não

os
meus
não

num mundo que prioriza a visão
vejo a janela de birdman

meu voo
é ela

27/11/2015

escorregadio (sem eu sem rumo sem ilha sem barco sem navio)

"De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no caminho" - Cazuza

eu rezo à raiva que se esgota
l-e-n-t-a-m-e-n-t-e
em minha azia
que a semana passe
o mês passe
o ano passe
o livro acabe

mas a cada dia
renasce
o tempo
minhas infinitas histórias
e a primazia de palavras e poemas
(que não reconheço)

desfaço o laço do começo
com a lembrança do pior fim

vejo no oito deitado
apenas um infinito:
dor enfim

respiro morcegos
querendo ser cego
e não ter visto
o cisco em mim

há uma grande distância
entra a onda
o oceano
e a ânsia de vômito

há a lama
a vale do rio doce matando peixes
e, do outro lado, paris bombardeando crianças...

há tudo isso em cada um de nós:
descontrole
imprevisibilidade
o infinito que dói

assim percorro com teclados
a palavra
insolúvel

tudo o que eu já sabia
mas não consigo sentir:
desistir do mundo
do oceano
de suas rimas
espumas
mentiras

sigo herói quase sem eu
da última construção destruída

entre a onda e o mar
querendo ainda acreditar
em contos de fadas
e canções de ninar

(mas não conseguindo)

24/11/2015

walking dead: forever young

num mundo cheio de filhos da puta
os poucos babacas que não são filhos da puta
tendem a se tornar

é como um apocalipse zumbi
se espalhando rápido
sem ninguém entender
qual foi a porra da causa

23/11/2015

dupla derrota

num mundo
com muitos mais estátuas
(e histórias)
de homens

mulheres inglórias
repetem o comportamento másculo
fadado ao fracasso

mulheres que não se destacam
pela compaixão, carinho,
cuidado, nutrição...

competimos

num mundo
com muitos mais estátuas
(e histórias)
de homens
a cavalo
segurando espadas

(leitura de Sabrina Corrêa Silva)

19/11/2015

lenz

é questão de mágica
de energia
calor e fogo

é transbordar
em vez de contar gotas
além da água e do lodo

descontrole total
nenhuma racionalização
nada a se adaptar

tudo sendo pura verdade
apenas a certeza
apenas o sorriso
apenas a palavra
que arde

incompreensibil_idade

ela tinha que ir
pro mar vazio

eu era humano
e aquilo muito frio

pensei que ela também
mas quando olhei era um golfinho

16/11/2015

VALE: a pena

a vale do rio doce privatizada
transformou o rio doce
numa privada

15/11/2015

manda mais, maharaja

coisas do mundo ainda me afetam
me sangram, me tentam, me desestimulam
mas ainda estou no caminho

ajo ainda de forma errada
imprecisa, sem calma, autocentrada
mas ainda estou no caminho

e quando minha casa se enche
de pessoas em silêncio
meus olhos se enchem de lágrimas
de agradecimento

porque
apesar de tudo
ainda estou no caminho

13/11/2015

o terror em paris que há em cada um de nós

há os que temem a morte
há os que temem o amor
e há os que não se importam
e apenas explodem
ambos

há os que apenas explodem
todos
os que estiverem atrapalhando
seu plano, sua meta, seu caminho, seu deus

e por não terem brilho próprio
tentam tirar a luz
de uma cidade inteira

do não ter jeito

qual a capacidade de confiança
de quem mente sempre?
qual a sua paz?

mas o pior efeito do mentiroso revelado
é fazer o inocente
não confiar automaticamente

(uma vida mais íngreme
logo perto do natal)

o melhor efeito do mentiroso descoberto
é fazer o desligado afinal
olhar pros três lados da rua
antes de ser atravessado
pela lua

atu_ar líquido

o eu central
que nos faz respirar
nos asfixia

nadamos perdidos no vão
entre a prática e a teoria

10/11/2015

ponte aérea (ou um mundo superlotado)

vivemos numa época
em que nossa pressa
e nossa falta de ética
não permitem que vivamos
nossos próprios sonhos

nem no cinema.

nem no cinema!

eduardo galeano bem diz:
"nos perdemos de tanto buscar"
e buscando nem olhamos
o que deixamos de legado

sem projetos retos de vida
corremos atrás do próprio rabo
(tudo o que vemos)
deixando a lealdade pros cães
só por termos opções

pessoas descartáveis
(consumidores fragmentados)
comendo fragmentos de plástico
afogados na carne dos peixes

não conseguimos ficar meia hora
sem checar o celular apagado
não conseguimos ficar três anos
sem trocar o namorado

e todos olhamos consternados
alguns casais de velhinhos lentos e sãos
dançando um pelo outro - juntinhos
nas bodas que nunca mais celebrarão

valorização da vida

nada claro
(mais um futuro que virou passado sem tocar o presente)
viro o disco do meu eterno desamparo
e vejo a beleza do mundo nos que dividem ideais
nos que vivem para os outros
nas mãos estendidas dos voluntários

nisso eu acredito

07/11/2015

geração 90+ (xvideos poser, cada um por si, mundo cão)

a liberdade ilusória
do egoísmo
me rima a vida
com pessimismo

depois

não sabia
que seria preciso
tanta força
pra ver poesia no mundo

os imbecis multiplicam-se
não entendem as pérolas
e usam-nas para embelezar a bosta

vemos crescer no ar
uma geração inteira sem respostas
mas com muitas telas
sem saber o que perguntar

03/11/2015

meu

a palavra meuamor
deveria ser mais usada
mais estudada
mais lembrada

a palavra meuamor
desopila o plexo
abre sorrisos
sem deixar de mostrar toda vez
que é algo dentro de cada um

porque os amores passam
mas o meuamor
fica

(Slide final da palestra "Por que não vai dar certo?", do Gustavo Gitti no Festival Path.
O texto toma como base a abordagem do professor Alan Wallace | Foto de Carol Brunharo)

02/11/2015

uma dança lenta

de onde menos se espera
o passo não ensaiado
a canção maior das palavras

e você sorri
a subir escadas tão leve
de volta pro céu daqueles olhos

01/11/2015

sangue e pus

quanto maior
a decepção cardíaca
mais direciono
a fossa ilíaca
na direção da luz