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Poeta nascido no Rio de Janeiro. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000 na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009), é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em Corte (Ibis Libris, 2004) e rio raso (Patuá, 2014). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, que teve mais de um milhão de acessos em 2012, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo e publicados em diversas revistas literárias.  (saiba +)

30/05/2016

dualidade aprendida

criança eu fluía
junto com os rios que criava
com mangueiras no quintal

e se chovia
eu era a alegria simples
das calhas funcionando bem

criança é menos iludida

29/05/2016

é triste mas não surpreende

é triste mas não surpreende
se você vê as crianças dançando funk
ao som daquelas letras
com os pais olhando

é triste mas não surpreende
se você abre a revista tentando vender inutilidades
com modelos de 16 anos (ou menos)

é triste mas não surpreende
se você perceber a tendência
dos filmes eróticos

é triste mas não surpreende
se você olhar os bares lotados de gente se drogando
e as TVs passando UFC

é triste mas não surpreende
se você sentir a guerra inútil entre traficantes e policiais
ambos patrocinados pela burguesia
ambos mortos todo dia

é triste mas não surpreende
num país pra olimpíada
governado por golpistas
apoiados pelo frota
enquanto uma mulher é estuprada a cada onze minutos

é triste mas não surpreende
se você fala de cultura de estupro
desconsiderando a cultura de violência e a cultura da impunidade
sem parar para pensar no que é cultura

é isso, afinal:
punam-se os culpados
(fora de nós mesmos)
e deixemos a globo
vender jornal com a desgraça

acalento

solfejos de vocabulários
se olham
cansados mas com esperança

perfume

mãos que se dão
pelas ruas pelos carros pelos cantos
até que as bocas se reconhecem

silêncio

a avidez do beijo
me despertou sem som:
ainda pode ser bom

encanto

esculpo teu corpo
lentamente
com mãos macias

a flor fora do sonho
programado
flora apenas no agora

sem preparação
planos
metas

só o agora é sempre
(sem duração)

28/05/2016

caminha

primeiro tínhamos
eu e ela
uma garrafa fechada
protegida no vidro
e lá fora o mundo imundo
(que se exploda)

depois da quebra
passei a equilibrar copos tortos
sabendo do esforço vão
sabendo do tempo curto
e da refrescância breve e cristalina
até o chão

fotografei curtos milagres para todos verem
na rede social
e escondi hábitos ruins
(com letras e pedras de gelo)

agora
claro

agora
calmo

sem esforço rouco
nem movimento vão no copo:
70% 
de água no corpo

27/05/2016

diuturno 39 (uma garrafa em abrolhos de gaius baltar)

a chuva da noite sem deus
me inundou as manivelas

agora deito e morro
relaxo e morro
sorrio e morro

amanhã
ela

é frota

sete vidas
procurando o que
eu você

vou ser político
vou ser profeta
vou ser engenheiro
vou ser poeta

só pra vencer a meta
de rimar o óbvio:

nada tendo jeito
prefiro um governo eleito

26/05/2016

má temática

aviões de guerra
miniaturizados em andorinhas

12 elos de cegueira
orientando nossas metas mesquinhas

desumano
demasiado
noticiado

novidade:
30 homens
nenhum segredo
e nenhuma humanidade

23/05/2016

bandeira

ela branca erguida na distância
e na completa falta de outros meios
minhas poucas mãos tapando
os vazios de seus seios

atropelamento

buscamos

eu e meu nome
eu e meu carro
eu e meu sonho

venta e chove
do outro lado
da janela

crianças refugiadas na síria
desabamento na eslováquia
homem-bomba-judeu versus neonazista-cristã
romero jucá
mudamos de canal

buscamos autocentrados
atropelando o que for
e lá vem o dia dos namorados
produzir mais crianças
e dor

a ilusão de realidade
é uma sucessão de fatos
pequenos
enquanto buscamos Errado
uma vida
grande
(em separado)

22/05/2016

e vice-versa

todo herói tem um vilão
e não é longe ou fora:
é agora e no coração

17/05/2016

recorde

não gastar um segundo
construindo felicidade provisória

o dia inteiro
sem perder o profundo

a noite toda
olhando de fora o mundo

16/05/2016

aparta a mente

a casa que vejo se renova
toda hora
(nova e mesma)

piso frio sem cerveja
com cabelos sem cabelos
sofá perfeito pro chacra do peito

sala de meditação
alternando plenitude
e solidão

13/05/2016

para drummond

danço com as palavras
entre o amor e a luta

nem paixão nem arte marcial
mas um fracasso parcial
e infindo

bonitos rastros
aurora boreal em luto
no céu da folha branca

o poema é uma criança
e anda

escuta carla

escuta carla
minha voz nessas palavras

a vida é muito curta
para afastamentos definitivos

olha quantos encontros
desperdiçados
quantos sorrisos e aventuras

sim
ambos sabemos:
só tem maluco
(inclusive nós)

mas já passou da idade
de reatarmos os nós
dessa amizade

escuta
carla

12/05/2016

sopa de letrinhas sem teu nome

em vão me tenho buscado
nos vãos dos becos
bem alagados
de pessoas-recursos

ou na palavra
seco
um rio em curso de fortunas críticas
e conquistas temporárias

(leite no leito)

mas se me amas com calma
encaro todos os lados do auto dragão
a noite alta
a boca em chamas

(só eu e ele)

sou inamável porém
refém tarado
da condição de amado
e preocupado
com não amar ninguém

(inflamável)

é tanto não
entre o mim e o sim
que passou
quem sou
na sopa azeda do fim

11/05/2016

tipo anteontem

das raras vezes
que toquei a sombra do amor
foi distraído

sem muitos planos
sem exageros nos sentidos
sem peripécias de corpos ou palavras

algo entre o esperado e a surpresa
mas sem movimentos bruscos

tipo anteontem
quando estava na sala escrevendo um abraço
e estranhei o som de passos no quarto

10/05/2016

(a)trai e (re)pele

o calor que aumenta em tua pele frita
é o mesmo
se o inimigo te irrita
ou se a paixão te (a)trai

o mesmo

você pode entrar nesse vão
(na chuva de meteoros pra se desmolhar)
ou olhar de fora
do fogo da ilusão

você sempre pode
escolher

09/05/2016

insatisfatoriedade

entre a doença e a cura
entre a cura e a doença
investir seu tempo e crença
no mundo médio de esperança
na balança entre a conquista, o medo e o tédio

até renascer

entre a doença e a cura
entre a cura e a doença
investir seu tempo e crença
no mundo médio de esperança
na balança entre a conquista, o medo e o tédio

até renascer

a noite vai grande e alta
abraçados sem dança
eu e minha falta indo
pelos hábitos errados nos ferindo

mas a vontade de mais
(mimada demais)
perto de sair do ciclo de ais
empurra ao caminho certo

presente (só presente)

não

tempo

amor fati

amor
fácil
só se fóssil

08/05/2016

sofrida

o carma me amarra
na marra

o carma me aperta
a seta na testa
na direção errada

o carma me repete
o erro
a saída
vida após vida

04/05/2016

anticasa

minha pior parte
veio a mim sem arte
subterfúgio ou bonaparte

veio direto e reto
sem desculpa ou sonho
como um feto medonho

sem ter onde me esconder
nem em motor nem em chassi nem em aro
escrevi bem claro

a impossibilidade do não
planta um futuro
de indigestão

02/05/2016

pessoa coisa cidade torre

(inspirado por este documentário)

o homem-placa
vende espaço elevado
no cinza

eis a impossibilidade do horizonte
construída pelo homem-operário
que mora longe

o homem-coisa
está mas não está
visível
possível
admissível

mas as torres há

01/05/2016

estranhamento romântico

na quina do salto
dentro do silêncio
um puro coice do asfalto

a vida em tamanho
médio
entre o tédio, a decepção e o assédio

paro e pasto
sem par

***

mas o céu se abriu
sem falhas ou crostas
às minhas costas

um ruído na rotina
um brilho nas retinas gastas
céu a chamar
(muito mais céu que mar)

ignição

contato

passo
passo
passo
pássaros

tropeçar em trens sorrindo
na linha curva do abraço:
tu vens