29/10/2017

flame

cultivo meu cansaço
como bem mais precioso

a pilha de corpos mortos
que chamei de eu
o mar de lágrimas
que chamei de minhas

a chama
enquanto chama
chama
a cura

28/10/2017

terra vista

quase todos os meus sonhos
são mais amplos que o mar

acordo maior que eu
até olhar o celular

algo como perceber a luz
no constante som do ar

baleias de fogo heroínas
arrancam âncoras de mágoa

palavras mágicas
pra voar na água

minha vida
é um navio brilhando dourado
no crepúsculo de letras

todos olham com aplausos
mas ninguém embarca
por completo

26/10/2017

desci

o homem porco
precisa de muitos portos
por não saber nadar

o homem pouco
quer demais
para desperdiçar

o homem - o louco
aponta a seta para longe
pra se afastar

de si

23/10/2017

vale

enquanto nos distraímos no netflix
no celular
no jogo
no fora
empurramos as rugas pra cara
e apressamos as doenças e a finitude

nos intervalos
alguma música
alguma mulher
alguma impressão de que vale

tomamos pílulas
tecemos teses
morremos
esquecemos e somos esquecidos

e renascemos

e renascemos

10/10/2017

retrato

o beija-flor sobrevive
sem salário nem plano de saúde
há milhares de anos

a globo
segue mostrando a economia melhorando
no "mandato do presidente temer"

a academia de musculação
no intervalo entre músicas
recomenda que conversemos com outros usuários
mas todos temos celulares

as cidades infectam o mundo
e a febre
é o suicídio

09/10/2017

na falta de

a vida sem avidez
se avolumava
até o vórtice
vociferar volúpias de violões

v-i(-o-)l-e-n-t-a-m-e-n-t-e

verguei voar então
porque vivo enfim

o fim, como previsto, o vão
entre a vontade e o chão

mas a voz da visão
ainda me avoluma
e vomito versos
na falta de

brilho da pele

acordo as 4 da manhã
porque no sonho eu acordava e via uma mulher
pairando alva na noite escura
e gritava por meu pai

vou beber água
pura
e adivinho a luz da lua
no chão frio da cozinha

a janela
cedo
confirma a teoria:
ela é a lua
e amar dá medo

05/10/2017

pede a ela pra voltar pra mim

a noite tem boca
com gosto de cigarro

a noite tem 15 anos
e bebe breja
porque não pediram identidade

a noite vomita
no tapete do carro
sem maldade

a noite beija outras noites
sem dizer palavra

os pais da noite
nem sabem

a noite é sempre quase

a noite dança
e veio só pra dançar

a noite canta
e veio só pra cantar

a noite cansa

a real poesia
é se cansar da noite
e do dia