22/05/2018

saliva

salvo o dia pelo silêncio:
selva de letras sem
salva de palmas

morada

a namorada
não mora perto:
mora dentro

do solitarizar

hoje eu bebi o último todynho
mesmo tendo intolerância à lactose
porque me solitarizava ver o todynho
que comprei pra ela
sozinho
no canto esquerdo da geladeira branca

19/05/2018

em círculos

a vida não se resolve
com avidez ou sem
dissolve
o chacra do plexo solar
tem
mania ainda de tentar

fotografia do ser ainda a ser

preciso só mergulhar no medo do escuro
a mão do avô buscando a da avó
deixar doer:
doar mais que querer

16/05/2018

sinto cynthia

a noite vem vagarosa e gosto de ligar apenas a luz amarelada do abajur na sala agora ampla. por mais que a luz branca seja mais econômica, prefiro o momento dourado de amar o presente. a estátua do altar reflete o mesmo tom das velas.

noto que eu só escrevo porque ela existe, lê meus livros antigos, divide músicas românticas, enche minha vida com os corações desenhados em vermelho no primário. ela tem as mãos pequenas e o coração grande. a pele branca e os cabelos negros. ela é poeta de voz e violão. e ela vem.

minha inteireza construída na sensação de ninho, de casa, que só as conexões mais raras fazem brotar em mim. nem a poesia, nem freud, nem nietzsche me ajudam na escolha das palavras certas. mas a sensação fica. tão boa que prolongo nas palavras simples. nas coisas simples cada vez mais raras. tipo ela vir tão rápido e tão certo a ponto de me tocar a perenidade mais íntima com cada letra da palavra cynthia.

13/05/2018

quatro e meia da manhã

os poemas tem me escapado:
a mente ocupada com planos autocentrados
que não consegue mais ler ver ou ser fora de telas
sucumbe lentamente à velocidade da degenerescência
delas

os poemas tem me escapado
enquanto programo bruto a terra
e planejo a árvore
que não dará frutos

os poemas tem me escapado?
se esgueiram na beira de um filme mais lento
tocam o quase da musa distante que se aproxima

os poemas tem me escapado
da palavra cynthia