11/12/2017

anti-romântico 108

o coração foi exaustivamente treinado em precisar dela para relaxar
em vez de simplesmente
relaxar

trilho e não trilho o caminho do meio
entre o esforço o soltar e o perder-se

em raros instantes tênues
que logo se vão
sinto
das chamas do silêncio
o coração maior que o mundo
tal qual drummond

09/12/2017

racionalizando (gorro de Noel e camisa do Batman)

a gente sabe que não deveria comer carne
mas come

a gente sabe que não deveria criar confusão
mas cria

a gente sabe que não deveria ter filhos num planeta onde a vida nos oceanos se extinguirá em vinte anos
mas tem

a gente sabe que deveria jogar fora o celular em vez de tocar nele mais de duas mil vezes por dia
mas não joga

a gente sabe que deveria evitar as distrações, o tinder, o game, a night, o netflix
mas não evita

a gente sabe que a resposta é in
mas vive out

a gente sabe que não deveria interromper a meditação para fazer um poema
mas interrompe

e
se derem chance
faremos palestras sobre autocontrole

02/12/2017

tocar a tríade ao mesmo tempo sem tempo

cantar alto
no centro da noite
até perder a voz
e se achar no silêncio

28/11/2017

pai dai

o tempo dissolve as placas
de inauguração

somos nossos nomes
e conquistas que dissolverão

a verdade e os pombos
calam estátuas de heróis a cavalo

ovo estrelado quente
na noite escura do dia
que se repete

27/11/2017

modernos

os casais se esfregam como minhocas
ou vermes
os casais são muitos e têm muito na mente
os casais não se veem
como casais

a pressa é maior que as palavras
as palavras também muitas
os casais com vários nomes

os casais com fome

os casais escondem os celulares

os casais como coisas
em movimento perpétuo

os casais criando vida
ou despedida
se esfregam
se tocam
se trocam

o casais sem casa
na palavra
amor

25/11/2017

acima do espelho das águas em que caminhamos

o canto do pássaro
repete algo antigo e doce
aos ouvidos que o criam

a iluminação é uma metáfora

18/11/2017

revolucionária e silenciosa

marina abramovic
é uma das artistas
mais artísticas
que já vi

e porque ainda se inventa
segue linda
quase aos setenta

artista no mundo
como reflexo
do humano frágil
complexo
profundo

17/11/2017

o sonho

a degenerescência se espalha
como o nada da história sem fim

telas nos ocupam os olhos

nos distraímos com passatempos
aí o tempo passa
e morremos

distrações nos distraem das distrações
distrações viram hábitos e vícios normais:
interrompemos o livro para o facebook
interrompemos o facebook para o filme
interrompemos o filme para o tinder

nada basta
nada satisfaz
e cultivamos cansaço

sabemos ser mais
mas os campos de cansaço se ampliam
desertificando o silêncio

16/11/2017

auto-poema para me lembrar sempre e eternamente o que já sei

viver em retiro
para ajudar todos os outros
não é perda de tempo

viver em retiro
para se afastar de qualquer outro
é

14/11/2017

a sua lua como não-lua nem sua

faltou falar do lugar
naquele silêncio

longe dos pais

sem celular

frio

o lugar a pacificar
que crio
quando silencio

no fundo, os livros vão sair errados
os poemas na internet, trocados
eu não consigo consertar o mundo
(nem deveria querer)

o principal
é o alvo que não há
que continua lá
cheio de lobos
me apontando a lua

o lugar a enfrentar

o rio mais presente
sem frio sem som sem cheiro sem gosto sem brilho
sem água