22/06/2015

onde?

meu fígado não sabe que sou fabio rocha

e segue digerindo meu almoço

vou pro mercado sem saber também

pago com cartão, onde tá escrito fabio rocha

o plástico do cartão não sabe nem ler esse nome estampado nele mesmo

a identidade tenta ir além com uma foto, mas já mudei tanto de cara...


meu sangue não sabe de fabio rocha

a letra F do meu nome é igual a todas as letras F

se existe um fabio rocha, está em que parte?

nas unhas que adio cortar?

no peito onde pulsa um tecido que não sabe nada de fabio rocha?

nos neurônios que transmitem eletricidade sem pensar em fabio rocha?


no primário me chamavam de fabio josé

agora, uns amigos chamam de fabão

e eu ainda olho quando chamam

mesmo eu não sendo a cabeça que gira

nem o pescoço que faz girar a cabeça


respondo um e-mail mentiroso assinando fabio rocha

e percebo que também estou mentindo

17/06/2015

10/06/2015

persianas de aço

toda noite
na folha branca
dança
a possibilidade
da obra-prima

a lua observa serena
fora do espaço da janela
cada rima
cada fracasso

05/06/2015

hábito

você sabe a solução

mas tem horas em que
prefere a confissão
só pelo prazer
da palavra

hoje li um poema bom
então me irmanei
daquele ritmo de ver o mundo
no meio do olho da ilusão

os homens bebem cerveja
e deitam-se de barriga pra cima
com gatos mordendo seus dedos

os homens tentam ser médicos
engenheiros, advogados
e seguir bebendo cerveja e querendo
ser alguma coisa
ter alguma coisa

(nós
homens)

e há uma beleza nisso

você sabe que vai dar na mesma
que vai dar merda
mas há uma beleza nisso

é como o som de sapato alto
vindo em sua direção

ou a cor do batom do primeiro encontro

o tesão antes do beijo

a paz depois do orgasmo

03/06/2015

e agora, e agora...

exatamente agora
o espaço além do tempo
te olha distraído

refúgio sem relógio

na véspera do aniversário
um sonho me engasga as rimas:
ela chorando feito bebê
com saudade do pai
e o silêncio de minhas mãos
incapazes de acalanto

então lembro
(e compreendo)
o desencanto do fotógrafo
que tentou em vão não ver o mundo
do fundo das camas de casal

como quem desiste
sentindo a cicatriz
sobre a cicatriz
sobre a cicatriz

(uma escondendo a outra
nas tantas camadas do tempo
sem cura)

sonho
dentro de sonho
dentro de sonho

como quem desiste
no fundo da pele
(na superfície da maca)
de buscar refúgio
em novas facas