28/12/2018

27/12/2018

rede antisocial

nossos corpos
sujeitos a telas

telas maiores que elas
que eles

telas que todos
Olham

telas que ficam
quando o resto passa

22/12/2018

o arco-íris só existe se alguém o vê

as pessoas se espremem no metrô lotado
se esmurram no ônibus num calor absurdo
e eu tento ver tudo como sonho
com os dentes trincados e suando

19/12/2018

relação (ou orgulho da ocupação)

estamos todos ocupados
construindo castelos que ruirão
num lugar sem chão

persona

nunca conheci
uma pessoa
mais interessante
que uma personagem

instalação

o pássaro de prata
se move lento e constante

o passado é o futuro
o futuro é o passado

de dia - avião
de noite - fênix

ele arde? ele arte? ele revolução?
eu com celular na mão

o pássaro gigante
não sai do galpão

12/12/2018

cada ser é delimitado pela amplidão

distraídos venceremos
e a maior vitória é desistir

existir cansa
se a vida não for dança

sem ela
não se descansa
da prisão

a mão que teima em não
perde tempo:
projetos fora ruirão

desistir é sinônimo de soltar
dança boa é sem pensar
a beleza do céu nosso
o céu dela
o céu maior que todos

antes mesmo dos celulares

desde a primeira ópera
nos olhos dos amantes
relógios enormes

surdo

você vive em guerra com o mundo?
no fundo
já sabe quem vai ganhar

11/12/2018

soro

ela me cobra
por não cobrar cobrança
enquanto a vida dobra
e dança
sinuosa
longa
e sem veneno

dura

num mundo de homens fechados
quartos quadrados
relações interrompidas
imbecis eleitos
eu me abro

escrevo o nada
para o nada
com rimas de almofada
pra aveludar a vida

dura

10/12/2018

29/11/2018

do governador em exercício preso

O problema com o Pezão é o mesmo que todos temos: autocentramento. Pensar primeiro no que nos interessa e dane-se o outro. Todos temos a mão grande do Pezão.

28/11/2018

25/11/2018

do complexo das garotas de ipanema

a desistência é um lago calmo
largo e profundo

s i l e n c i o s o

ainda maior
que o ego das cariocas minimamente belas
que nada tem a oferecer além disto

22/11/2018

eu e minha raiva (ich)

fora dela
quase toda sutileza é fingida
ou provisória

dissolvido lentamente
no calor do estômago

autômato
no espaço mínimo
entre a defesa e o ataque

não terei filhos
para não herdarem isso
e com certa idade
também fingirem
humanidade

20/11/2018

você foi

tinder happn okcupid
tinder happn okcupid
um coito um coice um recorde
um coito um coice um recorde

um cansaço

tinder happn okcupid
tinder happn okcupid

paro

desinstalo

talvez o amor tenha sido
o nosso particípio perdido

e não é pouco
ficar velho e louco
mas com uma leveza laranja
uma certeza laranja
para acalentar esses dias frios:
você foi

há uns 2 ou 3 dias

a chuva cai e arde
como a prolixidade
dos que não tem nada a dizer

13/11/2018

smartphones para idiotas (ou a eleição do bolsonaro)

chegou o tempo em que quase todos tem celular

a maioria não tem esgoto
ou água

a maioria tem fome

mas tem celular

os malefícios do celular só serão divulgados daqui a uns 30 anos
que nem fizeram com o cigarro

mas quase todos com celular
tem whatsapp

no whatsapp qualquer um fala o que quiser
e não responde pelo que disse

no whatsapp seu tio é que passou a mensagem
e seu tio é mais confiável que a globo

o facebook comprou o whatsapp
o facebook foi processado por roubar seus dados

há empresas especializadas em usar estes dados
para mudar seu comportamento:
vender produtos ou políticos

bolsonaro foi eleito

12/11/2018

refúgio

o ovo se quebra sem esforço
e o tempo põe outro novo

todo castelo mundano
ruirá
até o próximo plano
do eu
(doeu)

a depressão é a doença mais necessária de nosso tempo:
precisamos cansar disso

mas o que eu não quero olhar
quando me distraio
com tinder comida videogame coca cola?

não quero olhar o medo da morte dos meus pais
que são o único refúgio
quando rompe a barragem de minha raiva
e as outras relações afundam
(assim aprendi a amar?)

não quero olhar
o vazio triste
da história da infância morta
quando eu chorava ouvindo caipirapirapora

não quero olhar
a tristeza das músicas românticas que não ouço
sem namorar

não quero olhar a morte

mas por simplesmente parar quieto
eu olho:

há de haver algo maior
mais largo e profundo
algo além das breves alegrias do eu-mundo
no verbo amar
sem sujeito
em silêncio
amar mais profundo e verdadeiro
sem eu nem ela nem você
de todos e para todos
sem tempo nem espaço
sem história
e muito além da linguagem

11/11/2018

que flua

aceitar
o fluir sem culpa

as várias mortes
que a vida acumula

sempre foram
sempre serão

todas as estátuas de definitivo
em que gastamos tantas mãos
são aves: passarão

cheias de vida
as mortes
sempre foram
sempre serão

até a tua

09/11/2018

tentando

perceber o vazio é pelas bordas
é principalmente perceber o sonho de um personagem
tentando perceber o vazio

08/11/2018

moro onde mora o moro

moro onde mora o moro
mas meu canto é contra a fome
porque no país do juiz ministro juiz herói juiz salvador
no pais do aumento do judiciário de 30 para 40 mil reais
no país que acha que a escravidão não acabou
no país do aécio livre surrealista
onde pobre sem saneamento vota em fascista
o filho da faxineira e o lavrador do interior
não vão mais poder mais poder fazer doutorado
e a fome piorou

05/11/2018

quando ela finalmente veio

Depois de meditar ela me agarrou e beijou e tudo brilhou muito mais do que em sete anos de meditação. Não fodeu mas foi o melhor quase da minha vida. Ela só andava de calcinha fio dental preta. Isso me encheu a vida de cor. Estava sempre maquiada, alta, corpo perfeito em cada detalhe, seios, cintura, perfume. Acordava linda. Batom vermelho. Cabelo preto liso. Pele branca lisa. Desde que ela foi embora nada tem cor. Marco encontros com outras mulheres e elas vão sem batom sem brincos sem cor. Cabelos desgrenhados. Algumas vezes com remelas. Como amendoim e não resolve. Bebo coca-cola e não resolve. Jogo videogame e não resolve. Compro sorvete e não resolve. Esqueço dela e não resolve. Resolvo escrever e ela parece ainda mais colorida.

29/10/2018

bahia

fecho os esqueletos
abro o afeto

o amor vai chegar amanhã
tudo bem

feto
fato

ao palato mole
só resta esperar

18/10/2018

orgânicas

as tangerinas de Viamão
não tem caroço
são pequeninas
se abrem com som

a perfeição
é lenta e doce

retiro

a gente não chega em rigpa
mas acorda de 4 em 4 horas
sonha lento e claro
e faz microesculturas em frutas cítricas

a dor no ombro distrai da dor na coluna
e o filme do sonho legendado
mostra que dor bonita
a dos amores passados

minha mãe explicaria um detalhe dentro:
"a tia lhe comprava casas sempre perto de seu nome"
bogart fuma no mesmo ritmo
lento

eu e minha irmã crianças comendo pipoca
o mar subindo destruindo templos
o tempo levando tudo
dentro

...

no fundo do fundo da noite
dentro de cada poema
o menino que inexiste conta histórias
(cada vez mais tristes)
para si mesmo

27/09/2018

ganha o mais indiferente? (trair, beber, levantar)

as novinhas de fio dental no instagram
querem sexo em quantidade
querem curtir a vida (gastar muito dinheiro)
querem curtidas e fama
querem aumentar o ego e mandar nudes
querem poder querer tudo e mais
querem liberdade
querem feminismo

as mulheres próximas dos 40
querem sexo de qualidade
querem casar e ter filhos com urgência
esquecem um pouco do feminismo
acham feio postar fotos na praia e mandar nudes
pensam em votar no bostonaro
e reclamam dos homens preferirem as novinhas de fio dental

os homens de qualquer idade
querem casar
ou querem só sexo
primariamente com as novinhas de fio dental

e assim vai o caos seguindo
com relacionamentos recentes
filhos de pais separados
e vencedores indiferentes

***

lavo a louça
e pauso poucos minutos em silêncio nada sofrido
sem buscar fora
e o poema não faz o menor sentido
no agora

25/09/2018

s2 rs

as tinderetes escoam:
areia das mãos

de mil matchs cem jantares
de cem jantares dez beijos bons
de dez beijos bons uma pérola
(que não te quer)

saudade remota de outras eras
quando seus pais mandavam você casar
e você aprendia a amar a pessoa que viesse
para a vida toda

24/09/2018

17/09/2018

as energias dançando (tin tinder)

7 meses sem programa
e num mesmo fim de semana
ana aceitou o cinema
juliana adorou jantar
e mariana aplacou a dor

7 dias depois
ana criou um dilema
juliana parou de falar
e mariana pediu 300 reais para fazer amor

(Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história)

15/09/2018

um

caem mil a direita
dez mil a esquerda

a finitude baila com a impermanência
no palco súbito
de um futuro duro e úmido

e eu ainda saio pra passear
(eu ocupado eu ocupado eu o culpado)

eu que deveria capinar
meus desertos com silêncio
até brotar empatia

eu e deus

12/09/2018

carol

filmes de 1950 nos vivem ao ritmo de 1950

os problemas são os mesmos
mas a velocidade
o tempo
a atenção
são outras personagens

09/09/2018

atypical (mais de um é um grupo)

o problema não é estar sozinho quando estou sozinho
(tenho pós doutorado em estar sozinho)
o problema é a visceral incapacidade de estar em grupo
(mesmo em grupo)

despertar (às vezes choro sem motivo vendo TV)

a gente dorme quando desiste de si mesmo
deixa as histórias se contarem
e solta as intermináveis expectativas

a gente dorme quando o ar entra mais suave
e sai mais demorado
(no ritmo do mar)

a gente dorme quando o corpo agitado
para de produzir tanto calor
e se deixa abraçar pelo pano

a gente dorme quando o último músculo tenso
solta a última vontade e o último medo
e aceita a condição de devir

a gente dorme quando todo o corpo desmancha na terra
e desiste de ser uma montanha
carregando o céu nas costas

08/09/2018

democracia dita dura

todos os proponentes do holocausto
deveriam andar de armadura
(por pura lógica)

mas não é a facadas
que o coração com ódio
se cura

05/09/2018

e nem falo da presidência

no país do desenvolvimento
a média é de uma criança por dia atirando no colégio
nos colegas consumidores
depois da guerra civil

com quem esse país não fez guerra?

o país da overdose
o país do overweight
o país doente
modelo da nossa elite

volume

a onda gigante do meu sonho repetido
agora afunda casas
hotéis
moradas

a onda eu nem noto
na água do sonho
mesmo e outro

03/09/2018

soltar

a água se adia
até não se conter:
chuva

e sempre acha caminhos
entre os céus e as pedras
entre os corações e os olhos

apesar de

se meu silêncio
não for cercado de palavras
por todos os lados
a ansiedade da noite enorme
não forja o sorriso
da criança que cria

oroboros

nada mais certo que meus caminhos errados
a sinuosidade de suas curvas
meus futuros acabados

e o bispo no poder ainda fala

quero não crer
que todo esforço
acaba na lava
e no fogo

jato anti-assistencialista:
sobram meteoros
queimam livros

o país da elite em golpe plácido
resulta em fogo

fragmentos (telas do tinder)

partes do passado em que partiram
os vários rostos que só havia em meus olhos

partes do parto do presente
entre o Cel a TV o PC

coágulo

tc
tc
tc com
partes do futuro possível
com nomes histórias e fotos

que se acumulam
misturam
confundem

anti-busca: a porta

sigo buscando flores
na véspera da guerra

a saída aberta

ouço infinitas instruções
de como sair pela porta

porta presente além do presente
silenciosa
aberta

e sigo buscando flores
na véspera da guerra

02/09/2018

da busca

a gente abre a torneira e sai água morna:
por isso começamos a escalar montanhas
jogar videogames
entrar no tinder

24/08/2018

em vez de abrir a janela

meu avô tomava banho de chuva no nordeste. não era um tempo muito longe. a gente teme. tem capa de chuva. guarda chuva. o excesso é temerário. o presidente não eleito é temer. e olha no celular a previsão do tempo em vez de abrir a janela.

vermelho

morango no açaí
e a minha mente por aí
flutuando no crepúsculo

17/08/2018

houve um tempo

ouvimos lendas
de seres antigos
capazes de prasempre

eram alvos e puros
tenros
possíveis

até conseguiam
viver
no presente

16/08/2018

cartas na rua

esperando o programa de cantores na tv, ouvir o preço da alcatra me acalma. a novela nunca acaba na hora que deveria acabar. a novela deveria nem começar... o personagem escritor que criou meu livro mais maluco não quer parar de contar suas histórias. ah, auges áureos instantâneos seguidos de silêncios mais solitários... o devir rói as unhas dos meus pés idosos. foco na familiaridade da voz dizendo o preço da alcatra e fecho a janela, porque tá frio.

mary shelley aos 16

as horas de céu que vivi nesta vida
não valeram as décadas no inferno

agora cultivo a desistência
semeando celulares no silêncio

e deixando o planeta girar
por si mesmo

14/08/2018

dança

estrelas da consciência nebulosas
espaço maior que tempo espaço
passo
e passo a passo seremos o caminho

11/08/2018

repetição

"não tenta remar"
repito a mim mesmo
constantemente

mas fomos treinados
habituados
cobrados
estimulados
a remar

(parados)

07/08/2018

06/08/2018

não vai

castelos são poemas sem olhos
buscamos fora até biologicamente

o quase não vai passar de quase
você mude de cidade ou de fase

o quase
não vai passar

04/08/2018

03/08/2018

da nossa falta de delicadeza e ternura

explodir
exagerar
ferir
pela milésima vez

querer poder chorar
ou expulsar no canto
o calor no peito

não basta:
escrevo

somos seres sensíveis
em nosso autocentramento
cegos pra sensibilidade alheia

como pode ser tão difícil
oferecer a outra face
pro doloroso murro?

qual a dificuldade
de ver a fragilidade
de quem dá murros?

entender seu lado
sua história
suas dores
seus enganos

porque responder sempre
vez após vez
voz após voz
letra após letra
com o automático peso
e o muro?

sorvo este cansaço

observo

me canso desse cansaço
para ir por outro caminho

de que vale a palavra final
no túmulo?

quantas separações levarei
quantos cortes bruscos e dores
do que não pode ser separado?

27/07/2018

total eclipse

o olho se mostra
vermelho e redondo
num céu que se apaga

não há vagas
nas bordas da praia

celulares seguram humanos no vento
na direção do olho amarelo
que se abre lento

11/07/2018

palavras no silêncio

a estátua está bem
a estátua está calma
a estátua está relaxada
a estátua me olha de olhos fechados
a estátua não compara
a estátua está totalmente despreocupada
a estátua não deseja nem não desejar
a estátua repousa sobre um indizível maior
a estátua quase sorri

o espaço cintila pirilampos inexplicáveis
pequenos pontos de luz quase instantâneos

a estátua sabe
eu tento saber menos
mas insisto em racionalizar:
eu e você somos o mesmo - a estátua

08/07/2018

belo belo

a soma dos silêncios das mulheres que amei
me fazem escrever essas linhas

a soma dos silêncios das mulheres que amei
tendem a zero
tendem ao infinito

a soma dos silêncios das mulheres que amei
deixam o vício da memória
relaxar inícios

videogame da vida

nascemos e morremos como filhos
nascemos e morremos como pais
nascemos e morremos como nomes
nascemos e morremos sem perceber
o que se mantém forte
além de vida e morte

janelas de trens imaginários

as mãos ligadas ao teclado:
sequência de letras
dizendo o que a boca não fala
por olhos que só veem
telas

28/06/2018

tudo bem

já nem tento

tv: copa, galvão, os bonecos de recife e o olodum
beleza mas não brilha

anúncio:
muito antiga a ideia
de fazer um empréstimo pessoal
para comprar a felicidade que vendem

anuncio
a canção no mesmo teclado:
"é impossível ser feliz sozinho"
"é impossível ser feliz sozinho"
"é impossível ser feliz sozinho"
"é impossível ser feliz sozinho"
"é impossível ser feliz sozinho"

karaokê:
a menina com a boca quase na minha cantando
o corpo grudado no meu
menina linda e tal
eu canto e vou embora sem sal
ela agradece

(mas uma parte minha ainda acha que perdeu alguma coisa)

26/06/2018

às 5:30 da manhã

às 5:30 da manhã
luzes acendem e apagam no prédio adiante
árvore de natal gigante
fora de época
câmera lenta

às 5:30 da manhã
antes da mente nos contar quem somos
um céu brilhante entra em perfume
no espaço completo
que não espantamos com sons

18/06/2018

tititinder

esgarço a terra com pés de nono andar
me distraio para não andar
(telas para não tê-las)

atravesso a estrada por tropeços
(o triunfo por vir)

ela me lê silenciosamente
em algum lugar do horizonte

13/06/2018

falsa janela

novidades

nove horas
era deus na sua frente
na sua cara nona

o mar se abrindo
todas as chances próximas
cornetas de anjos no volume máximo inaudível

mas você ia cabisbaixo
olhando a tela do celular

sobre a distância mínima entre recife e rio de janeiro

cara cynthia
o fato é que
fui ao cinema sozinho
ver um filme romântico
no dia dos namorados
nesta data

nenhum esforço ou sofrimento
nenhuma dor a escoar a ribanceira da face

os casais se emutecendo por todos os lados
eu ilha de paz
por em ti não estar ilhado

e ainda
ganhei balinha grátis
e paguei meia entrada

sem mais
atenciosamente

movimento de hábito

a verdade é que algo dentro não quer
ser lido, ouvido, entendido, nada

quer ficar quieto se distraindo com o filme
o livro a música
a vida sem vida

quer não perceber a falta
por se alimentar dela
depender dela sem analisá-la

alisá-la na alva pele feminina
(rima com porém)

e se apressa
por ser sempre
tarde demais

11/06/2018

amor pleno

(para cynthia)

se este ventilador de teto fosse um avião
minha casa sobre os mares do mundo
admiraria o curso dos rios
que sempre acham o caminho certo
sem placas nem guias
o caminho exatamente
certo

07/06/2018

antifluxo sem selfie nem tinder

não quero nem fingir amar naquele ritmo febril autocentrado
não tenho saudades da inocência romântica
nem dos troféus, espadas e cadeados

eu amo parado e constante
olhando as pessoas com pressa

eu amo como posso e calado

04/06/2018

solar

o silêncio do céu
não ouvimos
por acreditar em nossas histórias

perdemos a janela
a breve janela
com palavras e telas

o sonho acordado
é o sonho dormindo:
sonho

tocar de leve a mão
na asa do despertar distante
já arrepia de imensidão

não importa se choveu
ser maior do que o céu
é deixar ir o eu

01/06/2018

samsara 2

o problema não é nem a pressa
mas acreditar na promessa
essa
essa
essa
essa
(todas do mundo)

o problema não é nem a esperança de não ter medo
mas ser sempre cedo
para ter medo da esperança

29/05/2018

da técnica

(Para Daniel e William)

queremos novidades
e as empresas que governam o mundo vendem novidades

as empresas só querem vender
e nós só queremos consumir novidades

assim a técnica
muito
rápido
nos ansioliza
e nos vende ansiolíticos

muito rápido
muito rápido:
as universidades só estudam novidades antigas

o tinder já está velho
o tinder já está velho
o tinder já está velho

evolução não é revolução

antes da escrita tínhamos memória
antes do celular sabíamos o norte e as horas
antes do facebook conseguíamos ler

antes da técnica não havia a bomba atômica

27/05/2018

26/05/2018

o mito do muito

ela trouxe música e poesia
para a vida que se esvaía
num rio raso todo pressa e muito

o muito é um mito

onde há muito há pouco

rouco de escassez
ela me juntou os cacos
cinderela sem tinder
ela, cynthia

16/05/2018

sinto cynthia

a noite vem vagarosa e gosto de ligar apenas a luz amarelada do abajur na sala agora ampla. por mais que a luz branca seja mais econômica, prefiro o momento dourado de amar o presente. a estátua do altar reflete o mesmo tom das velas.

noto que eu só escrevo porque ela existe, lê meus livros antigos, divide músicas românticas, enche minha vida com os corações desenhados em vermelho no primário. ela tem as mãos pequenas e o coração grande. a pele branca e os cabelos negros. ela é poeta de voz e violão. e ela vem.

minha inteireza construída na sensação de ninho, de casa, que só as conexões mais raras fazem brotar em mim. nem a poesia, nem freud, nem nietzsche me ajudam na escolha das palavras certas. mas a sensação fica. tão boa que prolongo nas palavras simples. nas coisas simples cada vez mais raras. tipo ela vir tão rápido e tão certo a ponto de me tocar a perenidade mais íntima com cada letra da palavra cynthia.

13/05/2018

quatro e meia da manhã

os poemas tem me escapado:
a mente ocupada com planos autocentrados
que não consegue mais ler ver ou ser fora de telas
sucumbe lentamente à velocidade da degenerescência
delas

os poemas tem me escapado
enquanto programo bruto a terra
e planejo a árvore
que não dará frutos

os poemas tem me escapado?
se esgueiram na beira de um filme mais lento
tocam o quase da musa distante que se aproxima

os poemas tem me escapado
da palavra cynthia

21/04/2018

19

Quando você transa com alguém com quem há muita química e que faz sexo com muita vontade, seu próprio desempenho também melhora. E isso é algo natural e instintivo, não se aprende em cursos ou com a idade e experiência.

Depois de uma sequência maior de mulheres que fazem sexo como quem toma sol na praia, uma mulher ativa, criativa, em sintonia com você e que saiba se mexer direito é como um bálsamo. Não dá tempo de pedir, ela já está fazendo, com vontade explodindo nos olhos. Você já está agindo também e toda a arte da coisa lembra uma dança sem nenhum ensaio. Sem preocupação com desempenho. Sem antes nem depois.

Ainda sinto a energia radiante de nossos olhos quando ela tirou a camiseta e o sutiã sem nenhuma palavra. Nem minha, nem dela.

19/04/2018

ker tc?

ela me curtiu o face
eu mandei letras sobre sua face
ela chama no whatsapp
eu compro passagem no chrome
e postaremos fotos juntos
até que a net nos separe

lá doce lá

a casa se forma na calma
o epicentro é dentro da cozinha
e o alimento na cama

06/04/2018

e os militares dando declarações no jornal nacional

óleo da noite são paulo asfalto
ar falta e sobra propaganda
sobra pressa e pessoas movidas pela moeda
pelo status pelo poder pelo elogio pela vitória
(eu igual e separado)

parado com lombalgia
escolho um filme brasileiro ruim
música ruim roteiro ruim direção ruim
e fico nele
sem ter filhos

quatrocentos canais mas fico nele

pior é o amor romântico

05/04/2018

nenhuma palavra toca nem de leve seu perfume no ombro direito da minha camisa (real)

acordei de um sonho lúdico
em que eu esculpia
meu poema último numa escada
as pessoas elogiavam desciam subiam
enquanto eu - desconhecido - chorava

(porque em sonhos consigo chorar)

29/03/2018

eu além de seus pais

de fora
das repetições de minhas histórias
ando leve
e olho a lua

estranho a fila de musas inventadas
que perderam os nós felizes para sempre
por buscar minha carteira assinada

eu
o mesmo eu
antes durante depois
e além do tempo

27/03/2018

des_peço

borboletas amarelas cruzam a solidez
dos ecos de meus problemas mesmos

conjunturas irmãs da mesma textura:
de textos
de nuvens
de aço

(apenas espaço)

23/03/2018

desculpe mas eu tenho que fazer uma obra-prima

enquanto mastigo meus próprios dentes
e a lombalgia dura antes durante e depois
busco algo fora pra me ocupar

porque ocupado não sinto a baleia respirando sob a lua
no mar que toca e é
que sou
que somos

porque ocupado fecho o vidro do carro
para o eu que me pede - pare
e sigo o curso do padrão estável
dentro dos meus muros
e dos muros que ergo pra proteger os meus

porque ocupado culpo o cupido
ou me distraio correndo pra próxima
e a próxima
e a próxima
ouvindo a música de amor
ou vendo o filme romântico
pra me distrair da anterior

porque ocupado o capeta
ocupa a mente vazia
e com foco na muleta
deixo a louça na pia
e cuspo no prato que se erguia na sombra da letra

porque ocupado
em procurar culpados externos
meu esterno se comprime
e me faço no compasso de panos quentes
e uma lista enorme de desistências
e fracassos

ocupado
dentro de meus dentes moles agora quebrados
enquanto mastigo meus próprios crentes
e a lombalgia dura antes
durante
e depois

moana (ou da criança que cria histórias)

você não é
o vazio herdado
nem o peito apertado
por buscar errado
tantas e tantas e tantas
flores

17/03/2018

Tempos muito loucos

A manifestação de pessoas próximas nesse caso da morte da Marielle me fez perceber (e estranhar) os grupos fascistas onde eu estava sem saber. Será que também virarei fascista quando ficar mais velho, com orgulho de espalhar virtual e ingenuamente minhas teorias fascistas fundamentadas em fake news, sentado no conforto do sofá, dentro do sonho da casa própria, com a boca escancarada cheia de dentes?

16/03/2018

09/03/2018

completo

nasço um poema morninho
pra acolher todas as faltas
pacificar todas as distâncias
acalmar o passado magro sobre cavalos de sonho
e caminhar sem pressa na beira da praia

completo

sem nenhuma meta além de
caminhar sem pressa na beira da praia

02/03/2018

a forma da água (ou da completude líquida após desertos)

nosso a gente é de antes de palavras:
cidades inundadas de paz
e o brilho antigo do renome
abraço

nosso encontro é sempre:
racionais demais
sentindo tudo no laço

tudo agora

tudo
menos
fome de fora

26/02/2018

momento

a desimportância das minhas histórias me enormizam.
há tanto céu pra gente andar sem tanto cuidado
e morar o olhar em verbos mais múltiplos...

22/02/2018

as time goes by

através da música
sem se perder em causas
(ela, a prática, a idade, o momento)
a cor lentamente
aumenta a intensidade presente

20/02/2018

onomatopoiético

poesia é quebrar as regras da linguagem e suas próprias
não lembro a última vez que contei uma métrica
e diariamente descarto descartes

11/02/2018

carnaval embora

comprei suco de manga no mercado
depois da musculação

vi o confete no chão do elevador
único e brilhante

voltei pra casa o quanto antes
e liguei o ar condicionado

nem um arranhão
da antiga sensação
de estar perdendo alguma festa
fora

09/02/2018

pokemon go tinder

estou matutando este texto há um tempo. este poema não me satisfez sobre a temática. o número imenso de semelhanças não pode ser coincidência. tinder é o pokemon go. apenas num sonho diferente. semelhanças:
- busca autocentrada por algo externo que nunca traz uma satisfação verdadeira, completa, final
- você desliza o dedo na tela do celular para tentar poder chamar de seu o objeto do desejo
- dá pra tirar foto dos encontros mais inusuais e compartilhar
- andando pela cidade, aumentam suas chances de encontros diferentes
- a quantidade enorme de encontros diminui a chance de satisfação em cada encontro
- toda a lógica do sucesso do encontro se baseia em probabilidades, fundamentada em características e estratégias
- quanto mais ansiedade, pior a eficiência e eficácia do resultado
- tempo enorme gasto para uma satisfação decrescente

rumo do caminho

quanto mais diferente do planejado melhor
quanto mais distante do combinado melhor
quanto mais inesperado melhor

04/02/2018

os índios - sim

nascemos e somos cuidados por babás
os índios não

ficamos sentados em salas quadradas para aprender
os índios não

vendemos nosso tempo em salas quadradas
os índios não

destruímos nossa saúde em hospitais quadrados
os índios não

usamos drogas para suportar o padrão de vida quadrado em cidades cinzas
os índios não

construímos prisões e hospícios quadrados para os que não se encaixam
os índios não

antes de morrer contratamos enfermeiras
os índios não

poluímos o planeta além do limite suportável por ele
os índios não

03/02/2018

teoria

a aranha do sábado
vem pelo furos na minha prática

arranha os fundos
deste silêncio bom
com futuros

o ranho de minhas contas bancárias
observa estável minha instalibidade
quando urde a solitude

incomprável paz
incomparável

01/02/2018

pokemon tinder go

dentro do sonho da vida cabem
mais sonhos fora
fora da gente ou do agora

cito dois:
tinder
e pokemon go

gastam com eficiência
a bateria do celular
e nossa paciência

encontros raros são raros
encontros raros são raros
encontros raros são raros

o canto da nossa pokebolsa sempre
tão cheia quanto
nosso quarto

a morte fria questionando infartos:
insaciáveis e fartos de vazio
estamos vivendo?

28/01/2018

é tudo um sonho

muitas vezes algo chama a atenção de meus olhos
e meus olhos inventam um som baixinho para aquela visão
mesmo sendo algo que não faz nenhum som

26/01/2018

a maré

amar é
encontrar alguém
para amarrar o seu cansaço

cansaço
de se perder na pele
se perder no perfume
se perder nos planos autocentrados
se perder na imaginação

a outra ponta da vitória é a derrota

amor é encontro intransitivo
intransitável
maior que sempre

16/01/2018

da cozinha como (c)oração

o cheiro do feijão
de minha avó
era iluminação

hoje cozinhar
para mulher é ofensa
e pro homem, paciência

minha vó não era muito de abraço
mas de atenção
e presença

hoje a doença
se espalha em telas
e ausência

15/01/2018

mudam apenas os nomes

as fábricas cospem o céu:
vulcões de autocentramento
no planeta constantemente destruído

andamos cabisbaixos
problemas nos nervos
isolados
enfermos

nossos pés
prometendo ir pra esquerda na dança
e indo pra direita na mesma dança
pela total incapacidade de cumprir o que se diz

gris é nosso tamanho
que diminui
sob a mesma lua nua

lua que veio da terra
terra que veio do sol
sol que veio...

o que nos leva a tudo:
se tem uma causa ou condição
não tem existência intrínseca

e o que não tem causa?
nada

tudo tudo
(nada nada)
sob a amplidão das estrelas
que criamos com nossos olhos

12/01/2018

búdico


quando se vê
começamos uma construção
semeamos uma confusão

quando se vê
a vontade de algo
nos motiva ao movimento

quando se vê
a roda gira e tudo muda
menos nosso estado mudo
(pleno)

prajnaparamita

as coisas
falham
quando funcionam

05/01/2018

chamando raul nos véus de maia

quando você vê
está no trono de um ap
com a boca escancarada cheia de dentes
comparando competindo comendo querendo comprando

os verbos cansam

movimentos vãos
de pêndulos nada sãos
voltando ao mesmo

(silêncio é a palavra mais difícil
mas a salvação)

04/01/2018

antimusa

cansado do ar condicionado
abro a janela
e percebo que não precisava de ar condicionado

ela entra
sento na cadeira mais confortável
e aperto as mesmas letras
das máquinas de escrever de todos o escritores

ela não quer meus poemas
e eu entendo ela

meus poemas tendem a assustar
desacreditar ardor e intenções
matar pela raiz
exagerar nos sons da palavra amor
lá fora

meus poemas tendem a perder o agora
este
este
este
por não estarem distraídos

pela janela
entram sons escuros
vozes de longe
perfumes futuros
ela

(mas obedeço: não escrevo)

01/01/2018

+ mar

como um barco de metal
sobra de alguma guerra esquecida
e segue o milagre de seguir
na superfície

lá fora
todos com metas
pro sucesso
tirando fotos, lustrando cascos, ousando certo

lá fora
palestras
conferências
festas
grandes obras

os barcos doutores
com pressa de chamar doente o velho barco
lento
mais craca que barco
mais silêncio que vontade
mais mar