o mesmo breu
- Fabio Rocha
- Escritor, psicanalista e poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000 na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009), é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em A Magia da Poesia (Papel&Virtual, 2000), Corte (Ibis Libris, 2004), rio raso (Patuá, 2014) e o budismo e o tinder (Multifoco, 2020). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, que teve mais de um milhão de acessos em 2012, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo e publicados em diversas revistas literárias.
03/06/2023
o inimigo sem luz: o medo
o mesmo breu
01/06/2023
47 pássaros e a ciência de dados
13/01/2023
ela era ela?
que falava de mim
a estrada sob pernas pneus pedais
o céu acima dos pardais
ela linda
tudo - absolutamente tudo - finda
04/09/2022
o incurável super-herói borderline
o super-herói borderline passou por infinitos médicos
psicólogos psicanalistas psiquiatras
que não o trataram como eboidofrênico
mas não desistiu de melhorar
(nunca foi deste mundo)
o super-herói borderline lutou contra inimigos que não havia
destruindo relações antigas com o grito de sua super-raiva
criando depois superarrependimentos
mas não desistiu de se perdoar
(nem de recomeçar)
o super-herói borderline é imediatista e antissocial
se irrita com atrasos
e coisas fora do planejado (esquizofrenia latente ou pseudoneurótica)
oito vezes mais do que uma pessoa comum
(e sente o perigo até onde não há)
o super-herói borderline extrai do vazio
no meio do seu peito
no meio de sua vida
sua facilidade para fazer arte
(e acalmar o trem fantasma difuso e destrutivo de si mesmo)
o super-herói borderline teme demais perder as companhias relevantes
se acha o máximo
e se acha o mínimo
em intervalos super variantes quase psicóticos
(além das bordas da suportabilidade em todos os multiversos)
o super-herói borderline não sabe o que sente
não sente o que sabe
não sente o que sente
não sabe o que sabe
além de dor e ódio
mas pode ouvir vozes delirantes
(herança transgeracional de super poderes descontrolados)
das instituições, grupos, cursos, delimitações e outros padrões:
estou fora - estou dentro
estou fora - estou dentro
estou fora - estou dentro
estou fora - estou dentro
estou fora e estou dentro ao mesmo tempo!
larguei: me arrependo
o falso-self do super-herói borderline
contesta toda figura de autoridade
se une com todos os seus defeitos
e segue instável, impulsivo e intenso no seu esforço dissociado
de todos os dias levantar da cama sem bordas
(corpo sem bordas casa sem bordas país sem bordas)
e tentar salvar-se do mundo
- Leia também: meu artigo sobre Borderline
22/08/2022
superação?
superalimentaram
meu superego
19/08/2022
a pior pessoa do mundo (2022)
abraço alada acalenta
no imaginário
ou por trás das lágrimas nasce o crepúsculo?
num ínfimo estalo
se torna a vida que foi (bela?)
11/08/2022
na beira da praia
a tempestade me sou
vento dentro de vento dentro de dentro
(ódio dentro de ódio dentro de ódio)
amor?
30/06/2022
porma
Não tive filhos. Quatro livros. Quarto livre.
Cada vez menos ligo pro conteúdo de meus poemas. Forma se forma em forma e informa.
Não fui super-herói. Não sou super-herói. Nem quero mais ser super-herói. Não sou nem legal.
A poesia, porém, sai. Da boca peluda. Não meço o lirismo por moda ou pra ser atual. Não sei nem o que é lirismo. Sei que está frio e escuro. Estou só. Sofrimento ou não sofrimento tanto faz. E se escrevo estou sol
20/05/2022
navi_o farol
o mar se move alto
ruge
dentro das horas dentro
líquidas de silêncio
estátuas natimortas observam
céus de azul
algo se aproxima
e seu som é grave
22/03/2022
edital
os sapos nas folhas
chuva
cheiro de terra molhada
som de vento em folha
os sapos nas folhas procriam e fenecem
os sapos nas folhas
chuva
cheiro de terra molhada
som de vento em folha
14/03/2022
dupla estagnação (ou o vômito de ouroboros)
mas
06/03/2022
noite (the sinner)
numa rocha que se deteriora no espaço
mora no fundo de meu hábito
o salto maior ao silêncio eu adio
nietzsche sim nietzsche não
meu coração
11/02/2022
04/01/2022
fabiorochapoeta
no email, no insta, no inferno: fabiorochapoeta
mesmo assim me perco de mim
busco empregos, musas, sentidos e coisas a buscar
tropeço em fugas e bocas
foco em metas
e eu no fundo querendo só me dizer: fabiorochapoeta
as irmãs inimigas
as primas negacionistas
a morte vem a galope
devorando promessas
mas sigo sem migo
fabiorochapoeta
02/11/2020
seu eu pelo menos conseguisse ter saco para ler as normas de concursos literários...
sento nu em frente ao teclado tenso
pianista de fraque saboreando o último silêncio
para nietzsche deus está morto
para deus nietzsche está vivo
dezessete graus no rio de janeiro
acordo só
nada para fazer o dia inteiro
ninguém para ver o dia inteiro
vou caminhar na nesga de sol entre nuvens
SEM MÁSCARA
antes de pensar na preguiça de caminhar ao acordar
o pé dói no sapato
a coxa reclama
a poesia vem
a língua insiste nos incisivos
e estranha infinitas vezes a porosidade
(será a idade ou o refluxo?)
ontem meia noite sem overdose
como último recurso
mesmo com intolerância a lactose
pedi dois sólidos milk shakes do bobs no ifood
(talvez em breve haja um ifood para relacionamentos não líquidos)
porém vivo e ando
ainda
os homens num mar de dor se matam pelas raras felicidades
(duram um orgasmo ou nem tanto)
os homens-nada nadam
os homens-duros duram
com a ilusão das contas bancárias durarem mais
telhados de mansões na beira da reserva
não conseguem evitar urubus
políticos vestidos de azul chegarão mais tarde na tv sorrindo
depois ou durante o mandato serão presos
(nesse ínterim, os piores citam a bíblia)
mas ainda há flores
nos terrenos não planejados
abandonados
largados ao acaso
nietzsche duvida de deus
deus acredita em nietzsche
20/10/2020
ovo de novo
sob uma luz não acesa
dos amores que destruí
perante a estranheza
da dificuldade
de caminhar um passo
na direção do amor novo
16/10/2020
high score
minha capacidade de relaxar acabou em 1987 jogando street fighter com o ryu pela ducentésima vez seguida com vontade de urinar numa tarde de verão. a geleia que virou meu cérebro agora fica tensa quase sempre e relaxa apenas quando deveria estar tensa. desde então poemas e meditação e tinder e pouca pontuação.
25/09/2020
19/09/2020
da melancolia das doenças
ela tinha agora uns 18
e cabelos brancos nasciam dentre os negros
perto da orelha esquerda
de tanto repetir as mesmas palavras
olhando as mesmas paisagens
todos tendemos a repetir:
os vazios os lugares as saudades
18/09/2020
to the one who knows
relance de ânsia
um ufo em vargem grande
doença como modo de ser cuidado
paisagem da infância
em inhotim um árvore de bronze
é lentamente erguida por árvores reais
e exalo seu silêncio
primeiro perdi o cheiro
depois perdi o gosto
azitromicina me deixando lerdo
sensação de febre sem ter febre
me lembrando
a sensação de vida sem ter vida
(canto com elvis no celular)
