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Escritor, psicanalista e poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000 na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009), é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em A Magia da Poesia (Papel&Virtual, 2000), Corte (Ibis Libris, 2004), rio raso (Patuá, 2014) e o budismo e o tinder (Multifoco, 2020). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, que teve mais de um milhão de acessos em 2012, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo e publicados em diversas revistas literárias.
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12/11/2018

refúgio

o ovo se quebra sem esforço
e o tempo põe outro novo

todo castelo mundano
ruirá
até o próximo plano
do eu
(doeu)

a depressão é a doença mais necessária de nosso tempo:
precisamos cansar disso

mas o que eu não quero olhar
quando me distraio
com tinder comida videogame coca cola?

não quero olhar o medo da morte dos meus pais
que são o único refúgio
quando rompe a barragem de minha raiva
e as outras relações afundam
(assim aprendi a amar?)

não quero olhar
o vazio triste
da história da infância morta
quando eu chorava ouvindo caipirapirapora

não quero olhar
a tristeza das músicas românticas que não ouço
sem namorar

não quero olhar a morte

mas por simplesmente parar quieto
eu olho:

há de haver algo maior
mais largo e profundo
algo além das breves alegrias do eu-mundo
no verbo amar
sem sujeito
em silêncio
amar mais profundo e verdadeiro
sem eu nem ela nem você
de todos e para todos
sem tempo nem espaço
sem história
e muito além da linguagem

17/09/2018

as energias dançando (tin tinder)

7 meses sem programa
e num mesmo fim de semana
ana aceitou o cinema
juliana adorou jantar
e mariana aplacou a dor

7 dias depois
ana criou um dilema
juliana parou de falar
e mariana pediu 300 reais para fazer amor

(Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história)

09/08/2018

nada a fazer (samsara)

o agredido foi agressor
o agressor, agredido será

busco a vírgula
do que me é familiar

01/06/2018

samsara 2

o problema não é nem a pressa
mas acreditar na promessa
essa
essa
essa
essa
(todas do mundo)

o problema não é nem a esperança de não ter medo
mas ser sempre cedo
para ter medo da esperança

19/05/2018

em círculos

a vida não se resolve
com avidez ou sem
dissolve
o chacra do plexo solar
tem
mania ainda de tentar

09/07/2017

ad infinitum

na tentativa vã
de reaprender a ter olhos
que se encantem com o mundo
acabam nascendo poemas mudos

achamos que nascemos
e levamos a vida toda aprendendo
a andar a ler a trabalhar a se encaixar e a morrer
para depois repetir todo o processo
ad infinitum

mas a janela pra fora da prisão
não está no beijo na cerveja na tv:
a saída mora desde sempre
em você

09/05/2016

insatisfatoriedade

entre a doença e a cura
entre a cura e a doença
investir seu tempo e crença
no mundo médio de esperança
na balança entre a conquista, o medo e o tédio

até renascer

entre a doença e a cura
entre a cura e a doença
investir seu tempo e crença
no mundo médio de esperança
na balança entre a conquista, o medo e o tédio

até renascer

a noite vai grande e alta
abraçados sem dança
eu e minha falta indo
pelos hábitos errados nos ferindo

mas a vontade de mais
(mimada demais)
perto de sair do ciclo de ais
empurra ao caminho certo

26/08/2015

florbela

os poetas sabem que a vida não basta
resta semear palavras dentre dores
e colher futuros melhores

10/02/2015

forma e vazio

calar
enquanto o mundo grita

preferir manter a paz dos píncaros
da neve nas montanhas
do tibete
de nietzsche

sem precisar estar lá

alegrar e alegrar-se
neste espaço e neste tempo
perto e presente
aberto

deixar o tempo escorrer no agora
enquanto o mundo apressa futuros
fugindo do passado
que - assim - se repete
e repete
e repete...

quebrar ciclos infinitos

olhar um pouco de fora
viagens, empregos, relações
todos as formas de brinquedos da mente
sabendo seu vazio

07/02/2015

vendo Birdman sem cortes

e os tambores constantes

como é grande a luta
dos que buscam fama, prestígio, poder

um filme longo

logo agora que o sábio
para de olhar as horas
pra perceber as engrenagens
dentro do relógio

e por detrás delas
um invisível maior que o tempo
indivisível de tudo
indizível em versos
concatena silêncios sem ilusão
com as negras mãos dos universos

e os tambores constantes

01/02/2015

mas tenho o whatsapp do porteiro

não conheço nenhum vizinho
mas ajudei um mago da noruega
a passar de fase no joguinho online
e tenho o whatsapp do porteiro

a vida me tira as peças
me tira as pernas
só tira
mas tenho o whatsapp do porteiro

me atiro no sofá da sala
ouvindo os gritos de cássia
e a tempestade lá fora
sem saber se alguém ouve
se alguém houve
se alguém move
meu coração

mas tenho o whatsapp do porteiro

19/01/2015

dançar porém no pasto

escrevo adiantando o passo
do espaço onde não estou

eu todo cadarço
na lama

e o falso refúgio que não vem
e quando vem, não basta
e quando basta, passa

09/12/2014

samsara: retrato

equilibrando pratos
depois de pratos
depois de pratos

pratos caem
pratos surgem
pratos novos brilham nossos olhos e os queremos
redondos
pratos velhos nos enjoam e os largamos
redondos

seguiremos assim
circulares
vida após vida
(sem vida)
até quando?

18/11/2014

o outro

o sol me arde e coça
mas nado no imperfeito
e vou assim mesmo
o olho com brilho
a vida com jeito