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Escritor, psicanalista e poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000 na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009), é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em A Magia da Poesia (Papel&Virtual, 2000), Corte (Ibis Libris, 2004), rio raso (Patuá, 2014) e o budismo e o tinder (Multifoco, 2020). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, que teve mais de um milhão de acessos em 2012, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo e publicados em diversas revistas literárias.
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10/08/2024

o demônio das onze horas

eu não deveria ter comido esse tacão de carne depois da meia-noite
agora estou com calor mesmo no ar condicionado
e esse filme do godard não ajuda

tudo que retumba quando meditei me volta
julgo a tudo e a todos, perdoai

não tem uma mulher que eu tenha namorado nos últimos anos
que consiga ter na maldita conta bancária dez mil reais
mas todas fazem 3 terapias, pagam 2 academias e querem 4 filhos

viajam pelo mundo para postar
compram um carro pagando dois com juros
geralmente gostam de sertanejo e filme dublado
alugam moradas ainda em bairros nobres
sem o sonho da casa própria

(e eu chamando urubu de meu loiro)

dito isso,

27/06/2022

sempre

com Hilda Hilst descobri que as estrelas estão sós
enquanto olhamos nossas mãos
(e os aparelhos em nossas mãos)
como mendigos

minha vida é uma espera
num lugar nunca pronto

solidão e obediência
entende?

às vezes são
às vezes tonto
me distraio com videogames da adolescência
no castelo que me prende

o furo da prisão é a janela
abrindo sorriso

o futuro da solidão é ela
a poesia que resiste calada
e na menos previsível madrugada
estrela

05/11/2013

semeando silêncio

reviso o poema
refaço seu detalhe

entalho a estrada
onde parto

retiro o aço
reponho a arte

16/10/2013

centro

sempre vi
no silêncio das árvores
a sombra da perenidade

é deste silêncio
que brota tudo
inclusive a nossa forma
de ver o mundo

vou junto
juntando palavras
para oferecer aos seus olhos


19/09/2013

alegria

hoje tenho alergia a poesia
mas tento manter a sanidade
a cada tecla fria

- bom dia
- bom dia

cá dentro, uma ave morre
e nenhuma palavra me socorre

fui no RH adiantar férias:
não pode de forma alguma

na mesa da menina tinham fotos
na minha, nenhuma

08/09/2013

manhãs sem luz em apartamentos não incendiados

todos dormem menos eu
no vasto

o som do sábado é o do tempo se perdendo
a vitrola que não tenho toca silêncio
sonho com baobás e passados

caminhões fazem trânsito lá no fora
carros
sempre muitos
sempre indo e vindo
e o mundo esta merda
e eu preso à falta e a mim

(atchim)

leio um poeta aleatório
jogo videogame
como dois pães e chocolate
nada adianta
nada
nada consegue a mínima marola
no oceano de areia do tempo

todos dormem
longe

(espero e espirro)

o peito teima em mostrar que existe

sem enfartar, porém
pulsa suas derrotas todas
(as mesmas de sempre)

sigo sem aprender absolutamente:
alianças no lixo
e mais armários e gavetas
que não abro

sigo sem aprender:
não tenho condições
de começar nada
exceto - talvez - um poema inexato

27/08/2013

ponte de angústia aérea

ela vai, ela vem:
ela não sai
daqui
porém
nem vou além
de ir também

você sabe que não há saída
eu sei que não há saída
e mesmo assim seguimos
indo

(arrepio de nostradamus)

mais nenhuma música salva
mais nenhuma lágrima alivia
mas ainda há saliva
e às 5 da manhã algo ainda pia

(além de frio, agora chove
sobre a minha pobre rima)

transbordo a poesia
só por pura mania
de esperançar o dia

assim vou
com a mesma expressão
de quem já calou muita dor
e sabe a paixão
menor que o amor

(me disseram isso um dia)



13/08/2013

sem escolha

danço apenas com a poesia

por inícios breves
por longos fins

danço apenas com a poesia

chovem demônios
queimam serafins

danço apenas com a poesia
no grande salão sem orquestra
da ausência em mim

02/06/2013

sem volúpia

salvo uma palavra que me salve
(salva de palmas)
saliva de violões vazios
cheios de som, sacrifício, saudade, desperdício...

olhos desertos
que se teimam
abertos

abertos ante o medo da grande noite
noite maior que todos
que a todos apaga a luz

quantas armas inúteis
ultratecnológicas
hiperverborrágicas
quanto tempo perdido com armas
facas, canivetes, espadas...

o que salva da noite
é o abraço
não o corte, a ferida

o oposto da morte
é o amor
não a vida

31/05/2013

aracnofobia

o meu afeto
é essa aranha tateando a parede

branco

o meu afeto é manco
sem tato
no corpo

seu contato
com o Outro
atravessa
a palavra

Imagem: Maísa Motta

(Poema inspirado na poesia de Mar Becker.)

10/05/2013

quase aos 40 do segundo tempo

esquisito:
sei quando gamo
mas não sou quando amo.

amo
mas não cedo
amo
pelo meio
amo
pelo medo de amar
amo e odeio
amodiar...

isto dito,
a esta altura do campeonato,
cabe aceitar o fato
e fazer um poema bonito.

02/04/2013

definições líquidas

famílias são agentes econômicos
espiões são agentes secretos
poemas são desagentes

23/03/2013

do fazer poético

acariciar estrelas por meio de teclas
louvar letras
coser sons
enquanto tudo se despedaça

assobio

um poema vazio
que estou cheio
de frio

23/01/2013

o que for

chova o que for em meu ouvido
olhos
qualquer parte

estarei vivo
enquanto escrever
um pingo de arte

18/12/2012

anarquia é rima rica de poesia

cada letra de um poema
é uma revolução
contra o sistema

cada letra
um cadafalso
verdadeiro
pra certezas caírem

e crianças inseguras plantarem
sementes quentes
de futuros sãos.

15/12/2012

14/12/2012

pro_fundo

voltar a poesia para si mesma
por si mesma

deixar essa busca de olhos
e amanhãs

calar os mestres

retroceder ao ponto inicial:
um poema de amor
se escrevendo em minha falta