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Escritor, psicanalista e poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000 na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009), é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em A Magia da Poesia (Papel&Virtual, 2000), Corte (Ibis Libris, 2004), rio raso (Patuá, 2014) e o budismo e o tinder (Multifoco, 2020). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, que teve mais de um milhão de acessos em 2012, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo e publicados em diversas revistas literárias.
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14/06/2023

rua honório 938 - parte dois

atrás do armário alto
do quarto da minha vó
caiu o pedaço de cabo de vassoura
pintado de branco
que eu chamava de espada justiceira
e nunca mais o vimos

agora caiu a casa
o telhado
o armário
o muro
a grade sobre o muro

ficou só a lembrança
(leve)

30/04/2020

higienópolis

na casa da minha avó
tinha uma caneca vermelha
que era minha

ela trazia mate bem doce
o dia todo
gelado

de vez em quando sentava num lado do corredor
eu de outro
e a gente rolava lata de leite condensado

às vezes eu sentava no quintal
para ouvir um rádio antigo
e conversar com as plantas

meu avô jogava futebol comigo
mesmo sendo uma ladeira íngreme
sem cobrar perfeições

ia na esquina comprar sorvete
conversando com todo mundo

depois o mundo
virou esta briga
torta

minha avó com quase cem anos
passando por pandemia

e o presidente
(aquela mula)
nem fantasia
que se importa

24/10/2019

:)

tenho esquecido uns poemas
junto com a arte de meditar
e lentamente sem conseguir analisar
tenho me aproximado da alegria eufórica da infância

a ânsia voltou com ansiedade
mas a cidade se abre em possibilidades
mesmo com as pessoas no celular
no ônibus no metrô na praia em qualquer lugar

minha terapeuta diria que fujo de algo
mas eu sozinho
só rio

13/07/2015

eu menino

meu pai me levou ao maracanã
pra ver o futebol o fluminense o atacante
mas logo virei as costas pro jogo
procurando algo mais interessante

23/11/2014

tentando dormir

sou a criança sem muro
tendo no peito a falta
e em volta um quarto escuro

19/10/2014

minha vó fazendo 90 anos

o presente dela:
meu passado doce
(a ponto de até hoje
me adoçar futuros
com aquela mesma receita:
lembrança, amor e letra)

04/10/2014

manoelizando infâncias

podem me tirar o olhar bom
a verde idade
até mesmo a verdade...

mas meu quintal maior que o mundo
eu carrego sempre comigo

19/09/2014

reinfância

o mundo era muito interessante
algo a ser desvendado
descoberto

a enciclopédia perto do dicionário
o medo de monstros no armário
o sonho repetido: voar

devorar os bichos do chocolate surpresa
e da coleção "o mundo da criança"
que meus avós e pais me liam
(não havia computador)

lembro de usar amêndoas como giz
e folhas de palmeiras como asas

hoje
toda a minha imaginação
vai pras palavras

07/02/2014

LP

vi a capa de um disco antigo
na casa da minha vó
e nunca mais esqueci:
porque doeu

era um cara de peito aberto
costelas arrebentadas por asas
saindo um pássaro que cantava mudo:
era eu

29/01/2014

mate

sobre o quintal que crio
passa um rio

mas passa tarde

e a vida que era doce
agora arde

24/09/2013

sem nunca mais soltar

quando paro
lentamente
me enraízo
na tristeza

mas me arranco
(ficam partes)

corro por bocas e artes
e quando parece impossível
salto alto
até voar a minha infância

(tão raros
meu sorrisos
verdadeiros...)

abraçado ao teu ar
não há ânsia
de sair

não há mundo abaixo
o peito em pedaços relaxa sem cobranças
e as ruas, os sons, as noites
passam

a vontade total de minha mão
é fixar-se à tua pele
profundo e pra sempre

28/05/2013

como bolo de chocolate

o colégio ao lado do prédio me acorda com voz de criança
cantam parabéns e com quem será:
aprendemos desde cedo a envelhecer e a casar

reexperimento
lenta e saborosamente
a palavra liberdade
imposta no céu da boca

com a língua solta
brinco com ela:
estréias e estrelas

19/05/2013

o vampiro do teatro

o que for em vão será pra mim

a música une
e me afasto
impune

nesse outono de nuvens
(quase inferno)
quase inverno
vergamos sob o peso do crepúsculo

um copo de mate
beija a boca do horizonte
extremamente doce

violáceo

violento
o dia
adia dores

e se cobre
com a noite fria

04/02/2013

a criança

a criança estranha
seu corpo enorme

entranha-se no mundo adulto
disfarçada de susto

a criança
é que faz poemas

01/01/2013

como o vô fazia

sair pra se molhar
                            na primeira chuva
não atrás de sorte
                            mas pra se lembrar
da felicidade

20/12/2012

poesia

como se no cheiro bom
da fumaça de fogueira
morasse meu avô
de bigode branco
fazendo maria preta
pra queimar e subir
(meus olhos)
até o final do céu

para Walter Cabral de Moura

lentamente leio
a lentidão
da tua palavra

desenho
(como recomenda Quintana)
na brancura das páginas
celebrando sem motivo ou pressa
ainda haver poesia no país, no mundo, no universo...

carregas nas letras
o melhor
de minha infância e da tua

essa tua poesia plana
que não complica
não enfeita, atua
diz a que veio
irmana