amor é presença na distância
fogo que arde sem chover
amor se eterniza na lembrança
do claro e breve relâmpago
(depois sofrer)
e se nessa sexta-feira à meia-noite
eu também esteja nesse teu espaço denso
entre palavra, imagem e esperança
me delicio com este silêncio
enquanto aranha focada em ti
querendo prender cada pedaço de sua alva perfeição
em minhas antigas veias
(nossa natureza)
és e somos
um dos raros sonhos maiores que a cópula
você, minha estátua
eu, tua cópia
a sombra do som
é silêncio
de luz
os amores
possíveis:
os impossíveis
e se a paixão for ver o imaginário realizado?
mesmo que passe
mesmo que mude
mesmo que acabe
ambos com um sorriso lindo
é o que tinha
sardinha em latas
doenças que se tocam e estranham
(estrangeiros de almofada)
é o que tinha
e aqui estamos
sem conexões côncavo-convexo
tigres nos armários trancados que se entreolham complexos
minha pressa passa a porta e rosna
sem base
minha nova palavra minha
minha minha minha
(outrora a coisa ia
ela-eu pensava conversava completava escrevia:
ela me lia - elo
eu me me lava)
para que começar
se isso vai ter fim?
e tudo fica assim
fora do teu laço
eu pedaço
de volta pra mim
o esforço maior do poeta
é ficar no trivial
passa uma mariposa sem simbologia:
tudo bem
ela no shopping olhando bijuterias
ela perto do aniversário e do coração
ela sorria
tudo bem
céu de tarde
tarde de céu
tarde demais
outonais em sombras
zelo em construção passada
implosão
(e implosão e implosão e implosão)
eleição onde políticos sorriem
televisão e telas
edifico a construção
lento
como quem não teme
como quem não treme
abaixo
trovões e gatos
abaixo
imensidão
um risco tênue sobre terremotos
se ergue sem olhar o céu
horizonto meio tonto sua mão dada