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Escritor, psicanalista e poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000 na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009), é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em A Magia da Poesia (Papel&Virtual, 2000), Corte (Ibis Libris, 2004), rio raso (Patuá, 2014) e o budismo e o tinder (Multifoco, 2020). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, que teve mais de um milhão de acessos em 2012, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo e publicados em diversas revistas literárias.
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28/07/2013

CSN cravo e canela

noite de sonho
café da manhã

o passado te acha
em qualquer cidade ou idade

essa janela sem vista
é o prédio da infância otimista:
bege e destroçado

nenhuma árvore
pra pousar minha esperança

*

Gabriela

a cidade com as curvas dela:
volta
redonda
(a acarinhar minha ternura)

ah, o mundo de sutilezas
que perdemos
pelo hábito

aqui
os garçons sorriem

e nós
dois (anormais)
nos percebemos iguais
sob relógios enormes

minha musa
minha música

um abraço
cala o frio
e deságua o rio de dentro

(fotografo na mente seus detalhes)

um abraço simples
no centro da praça
em frente ao casal de velhinhos

*

vi a fábrica de noite
sua fumaça de Blade Runner
operário gigante no meio da cidade que dorme
ao som de um saxofone imaginário

respirei aço em pó no ar
por dois dias
e me fiz de aço de novo

eu que me desmanchava
um polvo sem asa
(U tem cílio de escritórion)

agora
homem de aço
voando pra casa

12/07/2013

poema prum amigo que odeia poesia

Bukowski lhe diria: é assim mesmo

te mimam
depois você deve ganhar seu dinheirinho
num emprego estúpido

com essa grana
você pode pagar alguém pra curar sua mente fodida pelo sistema
melhorar as dores do seu corpo fodido pelo sistema
e seguir contribuindo prum mundo fodido pelo sistema

cefaléia
gastrite
tendinite
ansiedade
insônia
suores noturnos
fobia social
síndrome do pânico
hérnia de disco
fibromialgia
escritório

nas horas que sobram
a cidade grande desertifica as relações
corta os sorrisos
ocupa os amigos

a cidade grande, os jornais, os jogos do facebook
nos distraem de nós
nos destroem os nós

há corda

se tiver um cérebro, deus é uma piada
tente outra porta

você chega em casa e lava as mãos pra tirar os germes
abre a torneira e massageia vidros
silêncios moídos
gelados sentidos

corta os pelos do nariz - mas eles crescem
corta as unhas dos pés - mas elas crescem
e você sabe que vai morrer
mesmo não querendo

a salvação brilha no encontro com uma mulher
que depois te odiará
ou você a ela
por perceberem que a droga da paixão se esvai com o tempo
e ninguém salva ninguém
da cidade
do mundo
do sistema
da morte

no meio desta merda
cabe achar tempo
para deixar sair de alguma forma
o que o universo quer gritar com a sua voz
em vez de ter filhos

11/06/2013

bem que se quis

mundo enorme
em que estranho estar

disforme

literal, preciso, nítido
desértico, populoso, artístico

com plexo transbordado
em toda parte
escorre arte

observo sem dizer um ai
estes céus de vanilla sky
das cinco da manhã

não mais ir
deitado no banco de trás
do carro dos pais

ser o Único herói
capaz de fazer
a criança crescer

num mundo frio de ar
sem casaco ou afã
sob um sol que amarela
através de catracas vãs

voo

03/06/2013

véspera da passagem

sol silencioso

descompasso acelerado:
aceitar
dualidades interinas

(melhor aprender a apanhar
do que vencer)

todas as coisas no modo
o mais triste possível

(é mais fácil chorar do que crescer)

- Está um lindo dia, Fabio.
- Está. Está um lindo dia.

29/05/2013

monges longes

a gripe diminui o ritmo

legião de encapuzados
escondendo
que não tem rosto

o ritmo diminui a gripe

iniciamos leves
depois, pesados

marchamos pelo futuro
mastigando amendoim japonês dourado

preparamos o inverno medonho

o mundo - um deserto gelado

preparamos tanta coisa

pra no fim nos enterrarmos
uns aos outros
lado a lado