meio dia e homens vendem quentinhas
meia noite e mulheres vendem corpos
o cacto
na areia morna
cheio de espinhos
mesmo assim
mesmo assim
(mesmo assim)
se estranha em flor
o mar se assusta e para
silêncio
- a melancolia dos surfistas
- Fabio Rocha
- Escritor, psicanalista e poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000 na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009), é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em A Magia da Poesia (Papel&Virtual, 2000), Corte (Ibis Libris, 2004), rio raso (Patuá, 2014) e o budismo e o tinder (Multifoco, 2020). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, que teve mais de um milhão de acessos em 2012, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo e publicados em diversas revistas literárias.
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01/11/2019
13/04/2017
nada(r)
a praia desertifica pulmões
a praia plúmbea
pútrida
sal arde as narinas duras
nada dura
nada cura o mal
sob o mesmo céu
iodo
alga
lodo
o mar gritará toda manhã
um poema vazio
para o nada
toda onda é vã
a praia plúmbea
pútrida
sal arde as narinas duras
nada dura
nada cura o mal
sob o mesmo céu
iodo
alga
lodo
o mar gritará toda manhã
um poema vazio
para o nada
toda onda é vã
19/11/2015
incompreensibil_idade
ela tinha que ir
pro mar vazio
eu era humano
e aquilo muito frio
pensei que ela também
mas quando olhei era um golfinho
pro mar vazio
eu era humano
e aquilo muito frio
pensei que ela também
mas quando olhei era um golfinho
16/10/2015
barca no horizonte
tudo fora
um quadro que pintamos com o olhar
tinta de lágrimas
retinas nossas, tuas, vossas
filhas de um azul maior
garrafa de água salgada
no mar
fechada ainda
tons sobre tons
sons dobre sons de ondas
que não percebem ser oceano
aflitas
olhando a direção errada
agitadas
olhando chegada após chegada
sem ver profundo
que somos o mundo
o olho
o olhar
a tinta
o pensar
a cor
a luz
e o pintor
um quadro que pintamos com o olhar
tinta de lágrimas
retinas nossas, tuas, vossas
filhas de um azul maior
garrafa de água salgada
no mar
fechada ainda
tons sobre tons
sons dobre sons de ondas
que não percebem ser oceano
aflitas
olhando a direção errada
agitadas
olhando chegada após chegada
sem ver profundo
que somos o mundo
o olho
o olhar
a tinta
o pensar
a cor
a luz
e o pintor
03/07/2015
m_ar
deixo a água
invadir meus sonhos
meus olhos
minhas intenções
todas as partes quase antigas
duras como rocha
que deixavam
todos à parte
enquanto meu fogo criava
poemas amigos sobre o mar
invadir meus sonhos
meus olhos
minhas intenções
todas as partes quase antigas
duras como rocha
que deixavam
todos à parte
enquanto meu fogo criava
poemas amigos sobre o mar
21/05/2015
espaço
a vida entorta
a linha branca
do rastro
do barco
porém
além do mar
além das ondas
além do rastro do pássaro
além da vida e da morte
o céu
e-n-o-r-m-e
a linha branca
do rastro
do barco
porém
além do mar
além das ondas
além do rastro do pássaro
além da vida e da morte
o céu
e-n-o-r-m-e
24/04/2015
água e sol
o profundo permanece
abaixo das ondas que passam
da janela do silêncio
borboletas nadam
atrasadas pra aula
algo me prende
entre o raso e o fundo:
uma rede
um poema
o mundo
abaixo das ondas que passam
da janela do silêncio
borboletas nadam
atrasadas pra aula
algo me prende
entre o raso e o fundo:
uma rede
um poema
o mundo
![]() |
| Imagem: foto de Fabio Rocha |
10/01/2015
mar-in
as pessoas no carro, ônibus e trem
indo ou vindo atrás do pão
as pessoas no avião, cavalo e navio
com a boca toda não
as pessoas assim
não chegam
voo pelas palavras
numa nau só sim
sem pedir a mão
sem pedir perdão
aprendendo a não pedir
vou singrando um mar negro
pelas palavras
pelo sagrado
nesse apartamento vazio
iluminado apenas
pelos olhos dos que olham além de si
indo ou vindo atrás do pão
as pessoas no avião, cavalo e navio
com a boca toda não
as pessoas assim
não chegam
voo pelas palavras
numa nau só sim
sem pedir a mão
sem pedir perdão
aprendendo a não pedir
vou singrando um mar negro
pelas palavras
pelo sagrado
nesse apartamento vazio
iluminado apenas
pelos olhos dos que olham além de si
02/07/2013
escafandro
grafite é quase diamante
sou menos poeta
que amante
da poesia do amor
olho os ponteiros sem alvo
do relógio do escritório
o azul
mais que cor
ação de parar
e dor seguir:
semáforo incolor
bússola
querendo me expandir
pra além do medo
da angústia de estar no mesmo lugar
ah, mar imenso
longe daqui
mistério molhado de horizonte
nunca (vi)verei seu todo
sou menos poeta
que amante
da poesia do amor
olho os ponteiros sem alvo
do relógio do escritório
o azul
mais que cor
ação de parar
e dor seguir:
semáforo incolor
bússola
querendo me expandir
pra além do medo
da angústia de estar no mesmo lugar
ah, mar imenso
longe daqui
mistério molhado de horizonte
nunca (vi)verei seu todo
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