camila agora vem passar o domingo de quando em vez
e passo o dia inteiro feliz quando ela vem
jogamos com meus pais adedanha uno biriba e jogo da vida
e ela pede para eu contar histórias engraçadas de pessoas engraçadas
e rimos de chorar até
ela rir mais ainda me ensinado balé
- Fabio Rocha
- Escritor, psicanalista e poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000 na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009), é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em A Magia da Poesia (Papel&Virtual, 2000), Corte (Ibis Libris, 2004), rio raso (Patuá, 2014) e o budismo e o tinder (Multifoco, 2020). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, que teve mais de um milhão de acessos em 2012, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo e publicados em diversas revistas literárias.
06/03/2023
sexto poema para camila
26/02/2023
poetrix matemático
e no resto da vida basicamente errei.
vou pro céu ou pro inferno?
31/01/2023
do medo
os pequenos pássaros mortos
nos meus sonhos tortos
batem nos vidros dos prédios gigantes
viajam em gaiolas sem água
(alhos com bugalhos)
os pássaros mortos nos meus sonhos tortos:
o poeta no mercado de trabalho
27/01/2023
13/01/2023
ela era ela?
que falava de mim
a estrada sob pernas pneus pedais
o céu acima dos pardais
ela linda
tudo - absolutamente tudo - finda
08/01/2023
trinta minutos de meditação shamata
é domingo
no meio das férias:
não há obrigações
através do silêncio
do corpo imóvel
a mente silencia até o indizível
e percebe o quanto compara
cobra
planeja
galo
preocupa
javali
espera
o silêncio do quase
maior que o eu
o quarto
o sonho dentro do sonho
será domingo
no meio das férias?
06/01/2023
27/12/2022
um poema de dentro
a máquina de moer o mundo
cresce, range, tem dentes de fogo
e marketing de machine learning
seu som é tão claro e constante
que ninguém ouve
(que ninguém houve)
o resultado é certo:
no clima
nos resíduos
nas recursos
nos desertos
a máquina de moer o mundo
transforma jovens com olhos de esperança
em proativos suicidas
suas bordas indefinidas agora
lentamente enfraquecem
quem ousa pensar estar de fora
a máquina de moer o mundo
passeia por ela mesma
solta fumaça
quebra silêncios
e desinventa o canto das sereias
soltamos selfies e confessamos vantagens e abecedários
o dia inteiro, todos os dias solitários
em seus pequenos aparelhos retangulares
a máquina de moer o mundo
de aço molda cidades lotadas
vazias de laços
igrejas se formam da dor de existir dentro dela
e transformam belas palavras de amor
em motivação para seguir sem janela
25/12/2022
diurno (apesar de)
dia de natal
meio-dia
sol a pino
praia cheia
almoço e vou descansar
no ar condicionado
sem nem centelha de esperançar
na direção de uma mulher
pacientemente trabalhando a primeira
e a promessa psicanalítica da iluminação derradeira
(apesar de)
durmo
18/12/2022
clarice lispector - a descoberta do mundo
(Para Clarice Lispector)
saindo de casa
a vida é mais ampla
clarice também meditava
descobri no cinema que ela vivia "apesar de"
e na falta de grana de sentido de sossego de tudo
foi traduzida para trocentos países
porque Criava
clarice se sentia alienígena com pessoas vocabulosas
que curtem palestras sobre mímese e mimése
as largava e ia para casa
comer galinha com farofa
eu ando pelas calçadas dos bairros de clarice
pelas letras e palavras de clarice
me sentindo menos só
12/12/2022
26/11/2022
sessão de cinema das cinco
e eu a roupa da poesia mais louca
a escorrer dos dedos quentes
mas não deixo o furo
estragar o presente
20/11/2022
stonehenge
a boca enorme aberta
arco de dentes de pedra
tempo
e espera
11/11/2022
lançamento
por sobre a negritude da reserva
e um mar negro de espumas
saliva o outro lado da estrada
disco voador, fogo fátuo?
não:
nas janelas cansadas
luzes de natal das mãos de um homem
talvez religioso
talvez cheio de certezas
e a chegada da data me aperta o plexo
tantos mortos
tantas faltas
tantos antigos
me arrasto das gôndolas
ao natrifrício marketing pessoal
um planeta que morre
e ele
e nós
(e eu)
o mais belo dos homens
não vale o que come

