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Escritor, psicanalista e poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000 na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009), é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em A Magia da Poesia (Papel&Virtual, 2000), Corte (Ibis Libris, 2004), rio raso (Patuá, 2014) e o budismo e o tinder (Multifoco, 2020). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, que teve mais de um milhão de acessos em 2012, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo e publicados em diversas revistas literárias.

14/08/2013

ainda sobre a essência de mudar

trair é meu nome do meio

traio poetas por ser administrador de empresas
traio administradores por fazer poemas bons
traio poemas bons escrevendo poemas ruins
traio Nietzsche por julgar poemas
me julgo e me condeno
mas amanhã já me solto
por bom comportamento
estado de violenta emoção quando do ato
e outros atenuantes

(mas aí fico trancado em casa mesmo
cansado de mim)

trago no meio do caminho
e no fim do nome
a palavra rocha
como promessa falsa:

- nenhuma palavra me é sólida

13/08/2013

sem escolha

danço apenas com a poesia

por inícios breves
por longos fins

danço apenas com a poesia

chovem demônios
queimam serafins

danço apenas com a poesia
no grande salão sem orquestra
da ausência em mim

inesperado

quero casar
e ter
livros

cores futuras

forçosamente fecho
a caixa do passado no plexo

imagino um mundo vazio
um caminho em branco
nada complexo

eu diferente
recomeço novamente
em verso livre
passo a passo
sob o céu do universo

12/08/2013

ninho

horror de caminhos errados
gélidos

todos os meus descaminhos
em desalinho noturno

preto no branco

a balança
de minhas perdas:
lança cravada
em meus ganhos

sonhos quebrados
sem ponteiros

cansado do peso da leveza
meto a mão na massa
de novo

porque nenhuma planta germina
sem água

e nenhuma relação termina
sem mágoa

mas a esperança é verde

a esperança é ver-te
na casa pronta
sem armas
sem trancas
sem quereres

um lençol ao vento lá fora
ao sol de mim
nós leves

você sente mais a pétala ou o espinho?

os lábios dela em outra boca.

*

tremer de sangue e de frio

testo meu sentir
até virar sensação física

sentir algo não fingido, não inventado, não racionalizado
sentir tremendo algo tremendo
em toda a sua pele

apertando o rosto
o estômago

sem se contaminar com palavras
com a mente, que mente continuamente

ah, um sentimento verdadeiro, ao menos

*

e se for só aquela rosa?
e se forçar aquela rosa?

*

vejo o sangue
em todas as pessoas

sangue e guerra

relações?

torturar o que não está
nos seus padrões?

torturar com arte
torturas por partes

relações?

*

vejo uma gostosa comendo alface
e pela primeira vez na vida penso do fundo da alma:
foda-se

- foda-se a gostosa, a alface, o amor livre, OSHO, o 910, o Papa e a paz mundial!

com sinceridade de cão
com realismo budista:

f o d a - s e

*

nojo de ser poeta
nojo de ser humano
de viver em guerra
amando ou não amando

rio do amor livre
com o corpo tremendo de frio
sem ter onde me enxugar

*

mas é isso

boa noite e boa sorte

boa páscoa

bom natal

(sorriso)

vou trabalhar vazio
e voltar pra casa vazia
e não falar disso
com a psicoterapeuta capitalista
que mandei pastar

*

(não há nenhum jeito que não seja horrível)

*

que vida fácil a dos canalhas

*

tenho retraído tanto as garras
que já nem sinto as mãos

*

atenção

em breve vão morrer os poucos que restaram, Fabio:
será você e a noite:
ninguém por perto para ouvir seu grito

11/08/2013

plataforma

cuidado com o vão
entre a mente
e o coração

pai dos dias

meu pai lia
histórias de luz
nas noites negras:

me fez escritor

09/08/2013

indefinição

a ternura
é um desconexo
entre o amor
e o sexo

uma morte rápida

não sei como colocar este estado
num poema bom
mas tenho fome:

ainda me lembro consternado
da forma excêntrica
como você cortava o pão

02/08/2013

a um desenho

Para Tayra

me elevo em azul criança
porque cada palavra perfeita tua
tatua leveza
na minha esperança

conforme nos percebemos mais
mais alt(o) ar
em nossa dança
sagrada e leve

ah, menina
Voo contigo
sem nunca te soltar

Imagem: Duy Huynh

31/07/2013

sem nem pensar

sorvo um rio
de novos amores
cheio de lágrimas
que não choraremos

ah, o amor, o amor:
quando é, não falo
quando falo, não é
se perco, não calo
(sinto em todo o pé)

me convenço
e perco o rumo
me caminho
e perco a fé

ouço músicas que me piorem

não estou pronto
nunca estarei pronto
nunca estive pronto

mas insisto
insisto pelo alívio breve
difícil
distante:

esquecer
que a cada instante
a noite aperta este plexo cansado

(por isso também escrevo)

assim todos os artistas
bons que conheço
caminham curvados

como se seus ombros côncavos
e suas cabeças inclinadas
pudessem proteger sua falta





o amor mora longe

longo é o tempo sem ela.
longa é a partida dela me partindo ao meio.
ela, que me conhece inteiro.

28/07/2013

a-cor-dando (osama nas alturas)

para onde estamos indo?

trabalho que não inunda
o imundo do mundo

amor que dói
amor que prende

tarô que vicia

papa herói

radiestesia

prozac

insônia

paralisia nervosa
da criatividade concêntrica

borda de alegria:
fantasia
num bolo imenso de merda

CSN cravo e canela

noite de sonho
café da manhã

o passado te acha
em qualquer cidade ou idade

essa janela sem vista
é o prédio da infância otimista:
bege e destroçado

nenhuma árvore
pra pousar minha esperança

*

Gabriela

a cidade com as curvas dela:
volta
redonda
(a acarinhar minha ternura)

ah, o mundo de sutilezas
que perdemos
pelo hábito

aqui
os garçons sorriem

e nós
dois (anormais)
nos percebemos iguais
sob relógios enormes

minha musa
minha música

um abraço
cala o frio
e deságua o rio de dentro

(fotografo na mente seus detalhes)

um abraço simples
no centro da praça
em frente ao casal de velhinhos

*

vi a fábrica de noite
sua fumaça de Blade Runner
operário gigante no meio da cidade que dorme
ao som de um saxofone imaginário

respirei aço em pó no ar
por dois dias
e me fiz de aço de novo

eu que me desmanchava
um polvo sem asa
(U tem cílio de escritórion)

agora
homem de aço
voando pra casa