o canto do pássaro
repete algo antigo e doce
aos ouvidos que o criam
a iluminação é uma metáfora
- Fabio Rocha
- Escritor, psicanalista e poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000 na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009), é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em A Magia da Poesia (Papel&Virtual, 2000), Corte (Ibis Libris, 2004), rio raso (Patuá, 2014) e o budismo e o tinder (Multifoco, 2020). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, que teve mais de um milhão de acessos em 2012, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo e publicados em diversas revistas literárias.
25/11/2017
18/11/2017
revolucionária e silenciosa
marina abramovic
é uma das artistas
mais artísticas
que já vi
e porque ainda se inventa
segue linda
quase aos setenta
artista no mundo
como reflexo
do humano frágil
complexo
profundo
é uma das artistas
mais artísticas
que já vi
e porque ainda se inventa
segue linda
quase aos setenta
artista no mundo
como reflexo
do humano frágil
complexo
profundo
17/11/2017
desamparo
é sempre à noite
certa vez dirigindo por maria da graça
estranhei não haver mais casa para voltar
nem parentes, nem piscina, nem cachorros, nem avós
a sensação física da noite
maior que o coração sem pousada
se repetiu num retiro muitos anos depois
mais forte e crua
mas há a lua
certa vez dirigindo por maria da graça
estranhei não haver mais casa para voltar
nem parentes, nem piscina, nem cachorros, nem avós
a sensação física da noite
maior que o coração sem pousada
se repetiu num retiro muitos anos depois
mais forte e crua
mas há a lua
o sonho
a degenerescência se espalha
como o nada da história sem fim
telas nos ocupam os olhos
nos distraímos com passatempos
aí o tempo passa
e morremos
distrações nos distraem das distrações
distrações viram hábitos e vícios normais:
interrompemos o livro para o facebook
interrompemos o facebook para o filme
interrompemos o filme para o tinder
nada basta
nada satisfaz
e cultivamos cansaço
sabemos ser mais
mas os campos de hábitos normais
se ampliam
desertificando o silêncio
como o nada da história sem fim
telas nos ocupam os olhos
nos distraímos com passatempos
aí o tempo passa
e morremos
distrações nos distraem das distrações
distrações viram hábitos e vícios normais:
interrompemos o livro para o facebook
interrompemos o facebook para o filme
interrompemos o filme para o tinder
nada basta
nada satisfaz
e cultivamos cansaço
sabemos ser mais
mas os campos de hábitos normais
se ampliam
desertificando o silêncio
16/11/2017
auto-poema para me lembrar sempre e eternamente o que já sei
viver em retiro
para ajudar todos os outros
não é perda de tempo
viver em retiro
para se afastar de qualquer outro
é
para ajudar todos os outros
não é perda de tempo
viver em retiro
para se afastar de qualquer outro
é
14/11/2017
a sua lua como não-lua nem sua
faltou falar do lugar
naquele silêncio
longe dos pais
sem celular
frio
o lugar a pacificar
que crio
quando silencio
no fundo, os livros vão sair errados
os poemas na internet, trocados
eu não consigo consertar o mundo
(nem deveria querer)
o principal
é o alvo que não há
que continua lá
cheio de lobos
me apontando a lua
o lugar a enfrentar
o rio mais presente
sem frio sem som sem cheiro sem gosto sem brilho
sem água
naquele silêncio
longe dos pais
sem celular
frio
o lugar a pacificar
que crio
quando silencio
no fundo, os livros vão sair errados
os poemas na internet, trocados
eu não consigo consertar o mundo
(nem deveria querer)
o principal
é o alvo que não há
que continua lá
cheio de lobos
me apontando a lua
o lugar a enfrentar
o rio mais presente
sem frio sem som sem cheiro sem gosto sem brilho
sem água
10/11/2017
05/11/2017
e nem
o prazer de encontrar na prova do enem
o pré-socrático anaximandro, kant e sócrates
proporcional ao desprazer de vários poemas
(inclusive de leminski)
mortos
menores
parados
com uma resposta certa:
a b c d ou e
o pré-socrático anaximandro, kant e sócrates
proporcional ao desprazer de vários poemas
(inclusive de leminski)
mortos
menores
parados
com uma resposta certa:
a b c d ou e
03/11/2017
esperando godot
quantos anos esperando godot?
quantas décadas?
quanta dor?
quantos estratagemas
até perceber que não chegarão
nem na beira da perfeição
a mulher a vitória o poema?
quantas décadas?
quanta dor?
quantos estratagemas
até perceber que não chegarão
nem na beira da perfeição
a mulher a vitória o poema?
29/10/2017
flame
cultivo meu cansaço
como bem mais precioso
a pilha de corpos mortos
que chamei de eu
o mar de lágrimas
que chamei de minhas
a chama
enquanto chama
chama
a cura
como bem mais precioso
a pilha de corpos mortos
que chamei de eu
o mar de lágrimas
que chamei de minhas
a chama
enquanto chama
chama
a cura
28/10/2017
terra vista
quase todos os meus sonhos
são mais amplos que o mar
acordo maior que eu
até olhar o celular
algo como perceber a luz
no constante som do ar
baleias de fogo heroínas
arrancam âncoras de mágoa
palavras mágicas
pra voar na água
minha vida
é um navio brilhando dourado
no crepúsculo de letras
todos olham com aplausos
mas ninguém embarca
por completo
são mais amplos que o mar
acordo maior que eu
até olhar o celular
algo como perceber a luz
no constante som do ar
baleias de fogo heroínas
arrancam âncoras de mágoa
palavras mágicas
pra voar na água
minha vida
é um navio brilhando dourado
no crepúsculo de letras
todos olham com aplausos
mas ninguém embarca
por completo
26/10/2017
desci
o homem porco
precisa de muitos portos
por não saber nadar
o homem pouco
quer demais
para desperdiçar
o homem - o louco
aponta a seta para longe
pra se afastar
de si
precisa de muitos portos
por não saber nadar
o homem pouco
quer demais
para desperdiçar
o homem - o louco
aponta a seta para longe
pra se afastar
de si
23/10/2017
vale
enquanto nos distraímos no netflix
no celular
no jogo
no fora
empurramos as rugas pra cara
e apressamos as doenças e a finitude
nos intervalos
alguma música
alguma mulher
alguma impressão de que vale
tomamos pílulas
tecemos teses
morremos
esquecemos e somos esquecidos
e renascemos
e renascemos
no celular
no jogo
no fora
empurramos as rugas pra cara
e apressamos as doenças e a finitude
nos intervalos
alguma música
alguma mulher
alguma impressão de que vale
tomamos pílulas
tecemos teses
morremos
esquecemos e somos esquecidos
e renascemos
e renascemos
10/10/2017
retrato
o beija-flor sobrevive
sem salário nem plano de saúde
há milhares de anos
a globo
segue mostrando a economia melhorando
no "mandato do presidente temer"
a academia de musculação
no intervalo entre músicas
recomenda que conversemos com outros usuários
mas todos temos celulares
as cidades infectam o mundo
e a febre
é o suicídio
sem salário nem plano de saúde
há milhares de anos
a globo
segue mostrando a economia melhorando
no "mandato do presidente temer"
a academia de musculação
no intervalo entre músicas
recomenda que conversemos com outros usuários
mas todos temos celulares
as cidades infectam o mundo
e a febre
é o suicídio
Temas:
autocrítica,
budismo,
crítica social,
meditação,
poesia,
política
09/10/2017
na falta de
a vida sem avidez
se avolumava
até o vórtice
vociferar volúpias de violões
v-i(-o-)l-e-n-t-a-m-e-n-t-e
verguei voar então
porque vivo enfim
o fim, como previsto, o vão
entre a vontade e o chão
mas a voz da visão
ainda me avoluma
e vomito versos
na falta de
se avolumava
até o vórtice
vociferar volúpias de violões
v-i(-o-)l-e-n-t-a-m-e-n-t-e
verguei voar então
porque vivo enfim
o fim, como previsto, o vão
entre a vontade e o chão
mas a voz da visão
ainda me avoluma
e vomito versos
na falta de
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