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Escritor, psicanalista e poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000 na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009), é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em A Magia da Poesia (Papel&Virtual, 2000), Corte (Ibis Libris, 2004), rio raso (Patuá, 2014) e o budismo e o tinder (Multifoco, 2020). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, que teve mais de um milhão de acessos em 2012, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo e publicados em diversas revistas literárias.

22/03/2014

vila lobos

na tranquilidade
a música se personifica
entidade

bares viram casas

asas suaves de som
e sonho

21/03/2014

estudo do movimento

(Para M.)

corpos se tocam
acumuladamente

corpos se prolongam
serpentes

ritmos em silêncio

dança para olhos fechados

19/03/2014

araponga

canto de ave
mais leve que sua plumagem:
som de bigorna

15/03/2014

a escada da meditação

compaixão
sem paixão:
o amor na ponta de um mundo irreal

livro livre
página em branco
ponta de lápis pronta

mais fácil comprar
um óculos novo
do que mudar a visão

dentro
palavras nascem e morrem e renascem
aqui no silêncio que observo

agora entro

calo queixas continuamente
pra não doer meus calos
e o queixo piorar
(trancado)
num circunflexo
(plexo solar)

absorvo
eu
morto vivo
pela paz

reedito
reinvento
recomeço diferente
(a porra toda)
nem que seja eternamente

falha a calha da chuva
quando não chove?

calo novamente
o poema que não faço
até ele me explodir

rio

nada mais macio
do que uma pedra
moldada pela água

13/03/2014

desejo

queremos:

somos símios com vontades e contratos
doravante denominados partes
(realmente se sentindo incompletas)

vivendo uma vida individual
temendo uma morte individual
sem tocar a eternidade não nascida e imortal

e no esforço de não ser o silêncio universal
nos resta um pingo de arte
e uma infinidade de sofrimento

11/03/2014

convergência

Para M.

tudo melhora
circularmente, infinitamente, silenciosamente
a lótus flora

08/03/2014

por enquanto

Para M.

sem pensar em ir
o passo dado

sem passado
o ladrilho
sob o pés gelados

branco o teu abraço
constante brilho
com tanto desencontro
lá fora nas janelas

eu quis uma casa
e já estávamos nela

devagar e longe

(Para M.)

ouvindo jazz
e ela me chamar de cônjuge
enquanto chove fora das janelas

03/03/2014

o sagrado

Para M.

um corpo em formato de ninho

lá fora
sorriem e dançam
nos intervalos de uma vida sem sentido
mas precisam beber para tal

aqui dentro
enquanto meu corpo definha
defino precisão, relaxamento e atenção
a cada respiração
e não me salvo
(mas me deito)
num corpo em tato de ninho

bocas se acham sorrindo

nos intervalos
tento agarrar com letras
um fantasma que sempre escapa

o detalhe entalhado no silêncio:
dentro é fora
fora e dentro

se as perguntas nos movem
todas as respostas
que não nos parem
estão erradas:
está tudo em seu lugar

27/02/2014

folia

(Para M.)

obrigado, configurações caóticas imprevisíveis e incontroláveis
por mais um carnaval aquecido dentro da paz a dois

sem músicas altas ou bêbados baixos

sem frio no calor da multidão

Imagem: “Sunset, West Twenty – Third Street” – John Sloan

26/02/2014

rosa real e lírica

(Para M.)

o possível é perto
vermelho dentro
antideserto

dança quente
a palavra
parasempre

- tudo bem?
- tudo bom.

(sua mão)

tudo
bom

respiro lento
pra não voar
(e voo no centro do chão)

Imagem: “sem nome” – Lorenzo Mattotti

os homens com medo

(Para M.)

dei uma rosa pra ela
no meio da nossa primavera

os homens com medo
recomendaram pedras
pra me proteger

então abri ainda mais o vermelho
e fomos morar um no outro

Imagem: “Freedom” – Ilya Repin

24/02/2014

a borboleta

Para M.

foi quando descobriu que havia ar
em cima da água
que lhe pesava pulmões

novos olhos
mesmos cômodos
menos incômodos

eis agora a bênção
de respirar sem guerra

ela ao lado
me ensinando a ensinar

ela ao lado
bem do lado de dentro

ela ao lado
melado de doce

ela ao lado
música, amor leve

ela ao quadrado
(que se curva)

ela ao lado, meço:
uma estátua de carne e arte
começando a parte de viver
enquanto recomeço

Imagem: “Sunset in Mid Ocean” – Thomas Moran