não sei se você reparou mas
os amigos que você tem que cobrar para pagar as dívidas
que marcam e não vem
e que quando o alimento é pouco comem escondido
são melhores longe
- Fabio Rocha
- Escritor, psicanalista e poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000 na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009), é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em A Magia da Poesia (Papel&Virtual, 2000), Corte (Ibis Libris, 2004), rio raso (Patuá, 2014) e o budismo e o tinder (Multifoco, 2020). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, que teve mais de um milhão de acessos em 2012, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo e publicados em diversas revistas literárias.
12/10/2020
perspectiva
30/09/2020
saí sem máscara
fiz 15 dias em vez de 10
no isolamento da casa própria
meditei e foi bom
(e há muito tempo não era)
então saí sem máscara
para caminhar
imune
o sol ainda existia
e se apresentava novo
depois de cada esquina
e eu com essa vontade de lamber cada corrimão
e cada corpo feminino
ouço o som dos meus passos
e ultrapasso breve os pássaros que me cantam
a tristeza em meu pulmão
tristeza raiva e solidão
que cultivo por hábito de cultivar
até estourar o são
ou a relação
vi um filhote de cobra e várias borboletas
as árvores em cada folha buscam o sol
os homens, o dinheiro
eu, deus
sim, deus, porque testei todas as teorias malucas
e entre a alma e energia ele foi comprovado
por diversas vezes
para minha racionalidade duvidante duvidosa duvidativa duvidadeira
caminho
e na dúvida
faço metabavana
pros feios que dão bom dia e pros bonitos que não dão
(e desejo melhoras na próxima vida de todo cão)
uma árvore me fez carinho com seu cipó
e quase me aceitei em plenitude
a rotina é importante:
agora vou acordar sempre umas 9hs e caminhar
agora vou jantar 18hs pra poder ir na missa das 19hs
agora vou jogar menos videogame
ou não
25/09/2020
19/09/2020
da melancolia das doenças
ela tinha agora uns 18
e cabelos brancos nasciam dentre os negros
perto da orelha esquerda
de tanto repetir as mesmas palavras
olhando as mesmas paisagens
todos tendemos a repetir:
os vazios os lugares as saudades
18/09/2020
to the one who knows
relance de ânsia
um ufo em vargem grande
doença como modo de ser cuidado
paisagem da infância
em inhotim um árvore de bronze
é lentamente erguida por árvores reais
e exalo seu silêncio
primeiro perdi o cheiro
depois perdi o gosto
azitromicina me deixando lerdo
sensação de febre sem ter febre
me lembrando
a sensação de vida sem ter vida
(canto com elvis no celular)
11/09/2020
03/09/2020
tertúlia rasa
às vezes deito manso
e a poesia vem chegando
me trazendo no remanso
então me lavo
na água calma de mim mesmo
descanso o aço do cansaço
me revejo me reconheço me despeço
e me louvo na palavra
pulsologia
o especialista em pulsologia vai fazer um workshop gratuito online apenas para os dez primeiros inscritos que tenham pulso firme e vontade de revolucionar a própria vida com este novo instrumento da moda holística que sejam capazes de perceber esta oportunidade única para a expansão de consciência sem sair da segurança de sua casa segurando seu pulso que ainda pulsa
não me inscrevi
às vezes
as pessoas com stress
fadiga crônica sem ar
rinite e controle
para fazer o mundo girar
eu de fora do peito olhando
o mundo sem rumo girar
de qualquer jeito
sobra tempo
jogo meu videogame
de tarde às vezes durmo
23/08/2020
distorção temporal
o lado de dentro do abraço dela
é o passo para além do espaço
e não cabe em nenhuma tela
21/08/2020
a cidade onde envelheço
pessoas sobre casas
sobretudo dentro
ligadas conectadas grudadas no presente
estranho a cena
me aceno de longe de perto de antes
todo caetano de 1970 perpasso neste poema
vontade de voltar a lisboa
mas lisboa não há
lisboa é um retrato na parede
e voa
17/08/2020
um passo atrás
meu sonho é fazer música pra cantar
mas faço poemas pelo ar
o povo posta
o povo curte
eu olho pra dentro
e a letra me olha
a chuva cai
e o caminho me molha
tudo bem as festas lá
sozinho prefiro descaminhar
dois passos adiante
um passo atrás:
nada do que fugir
12/08/2020
tempestade
a parte boa é que não trabalhamos com small talk
e dos raios que exalamos com palavras
alguma clareza vai aos olhos
(mesmo que dure
milésimos de segundo)
mundo mundo vasto mundo
é festa na casa de raimundo
quando da morte de seu gato moribundo
todos com looks pra postar no fundo
do instagram comprado pelo facebook
