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Escritor, psicanalista e poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000 na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009), é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em A Magia da Poesia (Papel&Virtual, 2000), Corte (Ibis Libris, 2004), rio raso (Patuá, 2014) e o budismo e o tinder (Multifoco, 2020). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, que teve mais de um milhão de acessos em 2012, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo e publicados em diversas revistas literárias.

18/01/2015

coma ovo - não coma ovo

múltiplos mundos e verdades:
um pra cada observador

todos os cientistas concordam:
a certeza de hoje é o erro anterior

nós, os 7 bilhões de observadores deprimidos
não acreditamos muito em nada
e seguimos nascendo, competindo e morrendo
sem achar sentido
olhando sexo no celular
ou mortes na TV

a depressão pode salvar o mundo
(e a vida)
dessa humanidade distraída

15/01/2015

yellow - coldplay

esvaziar a cozinha das comidas estragadas
purificar com a chama do fogão
e cabelos compridos no chão
vou de mãos dadas com o universo
pela casa cheia de nexo
encarando a música de amor padrão
jogando fora o lixo
pra poder nascer a star
no crucifixo do plexo

13/01/2015

água agora da Nestlé

estamira na tela
a pausa em estampido

altamira que tentamos esquecer
num mundo que oferece
cada vez mais produtos
e distrações

(escrevo com a televisão ligada
e pessoas caçando fantasmas com água
em manicômios abandonados)

sinto saudades de tupi
e de olhar a lua
e de olhar a ti

soldados morrem no longe
crianças com fome no longe
altamira no longe sempre
enquanto valentes
seguimos de oito às cinco
atrás dos salários próximos
guardados por policiais
fardados
atirando balas de borracha e gás
nos vândalos que fogem dos currais

10/01/2015

mar-in

as pessoas no carro, ônibus e trem
indo ou vindo atrás do pão
as pessoas no avião, cavalo e navio
com a boca toda não
as pessoas assim
não chegam

voo pelas palavras
numa nau só sim
sem pedir a mão
sem pedir perdão
aprendendo a não pedir

vou singrando um mar negro
pelas palavras
pelo sagrado
nesse apartamento vazio
iluminado apenas
pelos olhos dos que olham além de si

04/01/2015

o renascimento do parto - um poema

não sabemos mais nascer:
cesariana

não sabemos mais morrer:
UTI

e entre estes dois verbos brancos
fazemos de tudo
pra nos distrair

03/01/2015

meia-noite em copacabana

o fogo de artifício
- a arte -
tem o ofício
de acender a pólvora
da revolução
que está pronta desde sempre
no centro de sua imensidão

mas você adia
e se espreme
todo dia
com cara de limão
saltando - com cuidado - o vão
entre o trem e a estação
para chegar no horário
e receber
salário

reveillación

olho de fora os mesmos fogos
de artifício
sem me sufocar na multidão

pra mim é uma data qualquer
apenas com mais chance
de crime, acidente, loucura e suicídio

o homem celebra não sei bem o quê
sorri pra foto
e posta no face
fazendo novos planos autocentrados

depois toma comprimido pra dormir
pra não engordar
pra acordar
pra não deprimir
pra cagar
e sai pra trabalhar

(e ajudar a destruir o planeta)

01/01/2015

espalho espelhos sem me fingir espantalho

assim me recupero da vida
desde sempre
a vontade de compartilhar o que não sai na foto
curtir o poema curto
circuito imprevisível

Sorrir nas curvaS

31/12/2014

renascimento

você vai achar que é mentira
mas às 16:49 do dia 31 de dezembro de 2014
enquanto meu coração cansado mastigava bananada
vendo woody allen antes de meditar
brotou um besouro no meio da minha sala
no nono andar do prédio
ar condicionado
todas as janelas fechadas

um besouro preto nada simbólico
barulhento
enorme
daqueles que minha avó temia

saltei e abri as persianas metálicas
depois as artificiais janelas de vidro
e ele conseguiu sair
com algum sofrimento

(que nem cada poema que nasce)

um novo tempo

a alvorada pinta de nuvens rosadas a tela do ar
mas a menina vai cabisbaixa:
brilha a tela do celular

30/12/2014

polissílaba

catar pedaços do que se perdeu no tempo
areia foto sentimento

deixar buracos lado a lado
telas e teias tapando
uma mulher que se penteia

descobrir de quando em vez
o roteiro de partes de alguém ninguém:
um perfume perdido
um vislumbre antigo
um toque amigo

ratoeiro a mim mesmo molhado de tempo:
um frasco de fracos instantes
perante a grandeza da falta
polissílaba

29/12/2014

planos cadeados de mudar adiados

ouço sons no vácuo

um braço se estende
fora de um caramujo
apenas pra pedir
que se afastem

(sonhos atropelando sonhos. amor distante. horizonte.)

enquanto isso
sem chorar
dentro do cômodo fechado
o ar condicionado movido a índios alagados
ronrona um incômodo
e jogo no lixo não reciclado pela prefeitura
outra fruta mordida vinda de longe
que irá pra longe (gastando petróleo, produzindo CO2)
para virar chorume

26/12/2014

férias

passado o natal
deixo a manhã passar ao sol
sem apressar ou distrair os retalhos do azul

detalho: árvores balançam na brisa
na rua mesma, tão outra
tão em paz

pastam ar
uns urubus no alto
enquanto deixo passar o asfalto do trabalho

sinto o fruto do silêncio:
palavras escritas esperando folhas brancas
(pesam)

adio amadurecer
enquanto musas adiam meus sonhos românticos seus
(rezo)

vejo sem agarrar os futuros possíveis
e lembro o espaço que havia no passado
o mesmo espaço que ainda há
que sempre haverá

com mãos leves
adio tudo
(até deus)

e nesse espaço breve sem sons
fora o cheiro do bronzeador
fora o vulto da menina na piscina
fora reflexos e reflexões ondas afora

suo e sou
agora



23/12/2014

meditação de natal

não se afogar
no oceano de Djavan
(longe de ti tudo parou)

caminho cidades cinzas verticais velhas
onde pessoas brotam nos muros
separando recursos:
grafites que arranham o som dos motores com pressa
de trazer o progresso e levar o sentido

somos mais do que pensamos sobre nós
somos mais até do que o brotar do novo nos muros velhos

ah, o eterno jogo de tudo surgindo a cada segundo do nada
agora
agora
agora...

não sou nada, Pessoa
não posso querer ser nada

caminho mais então 
pra não me afogar
no menos
(o chacra laranja doendo a lombar )

18/12/2014

ho ho ho

*

toda vez

no fim do ano
me vem essa pressa
de chegar não sei onde

me transformo em p-r-e-s-a
querendo mastigar não sei o quê