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Escritor, psicanalista e poeta nascido no Rio de Janeiro em 1976. Considerado um dos poetas brasileiros mais representativos da década de 2000 na antologia Roteiro da Poesia Brasileira (Global, 2009), é autor de vários livros publicados gratuitamente em seu blog, cujos melhores poemas foram reunidos em A Magia da Poesia (Papel&Virtual, 2000), Corte (Ibis Libris, 2004), rio raso (Patuá, 2014) e o budismo e o tinder (Multifoco, 2020). Mantém o bem sucedido site “A Magia da Poesia”, que teve mais de um milhão de acessos em 2012, onde divulga a obra de grandes poetas. Seus poemas já foram selecionados para livros escolares, traduzidos para o russo e publicados em diversas revistas literárias.

10/08/2016

do não ter jeito (li líquido)

é fase de moscas mortas
voando lentas
sobre refúgios tortos

nada claro
nada visceral
nenhuma palavra verdadeira

a beira
de um grau de desinteresse proporcional
ao grau de descompromisso
total

é tempo
de raso
e de pouco

é tempo
de amor só pros loucos
tipo arlequina e coringa
(não pros infinitos batmans atrás das máscaras)

rio duplicado
dos terapeutas
que não se curam

09/08/2016

tempos olímpicos

quatro anos
ou a vida toda
por água abaixo em segundos

ou a vitória consagrada em ouro
pra pendurar no pescoço:
melhor do mundo

extremos opostos
exatamente iguais
pras estrelas distantes

08/08/2016

geral

você queria mãos maiores
para proteger a pequenina semente
dos desígnios de um deus criador de mosquitos
e dos homens que não resolvem nem isso

você queria mais mãos
porque o sofrimento corrói toda direção

sonhando com dias melhores
somos hamsters correndo nas gaiolas
sem hamsters e sem gaiolas

sem tempo

precipitar

silencio a superfície
enquanto o mar ainda quer

quer a cada onda

(tudo sacrifício)

quer

quer

quer

as gaivotas acima
cruzam o céu imenso
sem deixar nenhum rastro

não as alcanço

precipício
de punhos fechados

06/08/2016

lótus

sem a base firmemente arraigada no erro
o talo não ultrapassaria a profundidade das lágrimas
para se abrir em flor

de onde tudo brota

mais simples
que nossas histórias e dores

anterior
aos nossos amores condicionados
aos nossos nomes
às nossas faces
à palavra nosso

mais duradouro que o tempo
mais amplo que o espaço

03/08/2016

exit (piedade)

esta noite eu soube que roberto piva
também não reescreve porra nenhuma
que a vida é curta demais pra reescrever poesia

eu sempre soube disso
bukowski e nietzsche também

eu direi as palavras mais poluídas esta noite

o poeta é um inconformista
malabarista de palavras
onde tudo acaba em pizza
(e trânsito lento)

lírios de ferro amplamente iluminados
faixas exclusivas para pedestres aéreos
helicópteros subterrâneos perseguindo almas líquidas

a salvação na poesia
a salvação no sagrado
a salvação no sexo
o poeta só: sol sem salvação

esta noite o cão do prédio não uivou
mas sirenes cantaram pra olimpíada
dormir a população

meu esporte é a morte que se aproxima
meu tempo é curto

pavio
pavê
navio

num mar cada vez mais
molhado de incompreensível

na solidão dos taxistas sem uber
e das prostitutas sem tinder

escrevo
logo existo

para isto fomos feitos

escrevo com a cara no sol
e a cabeça nas nuvens

a tempestade vermelha em seus cabelos
me traz tanta paz

idolatro seu perfume
de flor em botão

seus pés pequeninos
vendo comigo o jornal da globo
e minha coleção inútil de moedas velhas

seus olhos sempre maquiados
comendo frango
arroz
feijão

algo me diz que eu deveria
não sair de casa sem guarda-chuva
não soltar pipa no vento
não arriscar tanto
mas gosto de sim

(a vida é feita disso)

assim
quando ela respira mais forte
eu me perco de mim
eu me perco de tudo

e quando ela vai embora
eu
não
durmo

02/08/2016

a lua tem água

a lua tem água
e derramo do prédio mais alto
minhas histórias mal contadas

01/08/2016

Crítica ao meu novo livro "Romance de Começos"

Hoje recebi do velho amigo poeta Luiz Libório (conheçam o blog dele, vale a pena) esta crítica ao meu novo livro "Romance de começos", que está disponível gratuitamente aqui no Scribd. Leiam:

Em primeiro lugar, achei bonito algum princípio de organização, mesmo que óbvio. Como em “sou ateu mas creio no chupacabras” estar depois de uma breve discussão sobre a escravidão pós-Deus que descamba no desespero de encontrar um filósofo contemporâneo autóctone, sucedido por “Passei por gente e pensei: são humanos. Só querem ser felizes”. Quer dizer, sei lá se foi de propósito, mas eu entendi como se fosse. 
Por que esperar filósofos de humanos como eu? etc.
Se bem que esse “chupacabras” me atormentou, no sentido de parecer algo tragicomédia. Modernista, saca? Olha esse trecho de Macunaíma: 
"Cruzou os braços num desespero tão heróico que tudo se alargou no espaço para conter o silêncio daquele penar. Só um mosquitinho raquitiquinho infernizava inda mais a disgra do herói, zumbindo fininho: ‘Vim di Minas... vim di Minas...’"
Vê como a linda primeira imagem é destruída por essa comédia forçada? Seu livro me deu essa impressão. Muito.
Errar como Mario de Andrade. Nada mal, ahm?
Há construções de imagens lindas mas quebradas com esse tipo de sarcasmo:
“Se me movo, universitárias sabichonas ou estudantes da função quadrática se amontoam semestralmente em torno de meu sexo sem futuro: masturbação mental e orgasmo difícil. Se me movo minimamente em direção aos seios tenros enquanto falo de borboletas azuis em versos frágeis, do ovo do tempo nasce apenas o coito, a duras penas. Coito cada vez menos mágico.”
“Função quadrática” e “masturbação mental” são termos prontos que desfazem a criatividade (em mim) dos seus termos. 
“Em direção aos seios tenros” é tão forte que me lembrou uma imagem que li quando criança e nunca esqueci, algo que dizia do cheiro de seio que desprendia de uma adolescente (Breve Romance de Sonho, Schnitzler). Coisa fina. 
Mas “sabichonas” é um negócio de um mau gosto fodido. 
Quer dizer, esses adornos mal postos aparecem sempre, como espinhos. Uma boa ideia, tipo “se amontoam semestralmente em torno de meu sexo sem futuro” apodrecidas por “masturbação mental”. 
Lembrei que o Bukowski também faz essas coisas, de estragar imagens, e eu também fiquei muitas vezes incomodado com isso nele (não leio mais Bukowski; hoje o acho um Rei Lear que “ficou velho antes de ficar sábio”, um adolescente eterno). 
Em tempo: “do ovo do tempo nasce apenas o coito”. Que coisa linda! E perceba que é algo novo construído de elementos velhos (“tempo” e “ovo” são relacionados normalmente). Saca? Tô sendo chato? Pois bem.
Estou me sentindo o Mário Faustino falando porque o Jorge de Lima era o maior poeta brasileiro de todos os tempos e ao mesmo tempo era um mau poeta.
Será que somos bons poetas?
Gostei do plano de fundo “não me movo” que descamba em sentir uma paz “sem” (“sem um encontro no sábado, sem esperança futura, sem sexo há meses”), como se você estivesse para ser pedra, um Buda rochoso mesmo.
No fim da citação inicial há “excesso de ficção barata difundindo essa mitologia”. Eu ri. Você está falando do próprio livro? Queria que você tivesse mantido os casos censurados. 
“Romance de começos”: um relacionamento romântico que nunca passa do início ou um romance literário que não passa da primeira página?
Enfim: gostei? Não sei. Acho que como livro, não. Mas algumas imagens me emocionaram.
“Lustrar a alma cheia de dentes no próprio suor contente”. Bonito mesmo. Meio Breton em Nadja.
Saiba que escrevo DE CORAÇÃO.
Estou cansado de muita coisa, entre elas: dar opinião poética sem que seja DE CORAÇÃO.

29/07/2016

eu te amo mas tô no tinder (armadura de ouro)

eu te amo mas tô no tinder
você pode me ferir que a fila anda
nossa poesia não rima
mas não é você quem manda

eu te amo mas tô no tinder
marco e desmarco nosso jantar
conforme aparece alguém melhor
mas não deixo de te amar

eu te amo mas tô no tinder
a mente sempre ocupada
o facebook me força a sorrir
mas nunca solto a espada


27/07/2016

mistério

o que mora no silêncio
das mulheres de 18?

romantismo sem romance?
sonho sem meta?
esperança de fim do mundo?

a mais pura incapacidade
de andar de mãos dadas
ou apenas
nada?

25/07/2016

basta

estamos todos descalços
correndo no asfalto
atrás de alguém que se afasta

estamos todos chorando
perante a falta de controle

estamos todos parados


*OBS.: A inspiração pro poema:

Saí com o carro da garagem e tinha uma mulher correndo atrás de alguém e gritando "Pára!". Encostei o carro ao seu lado, abri o vidro notando que as lágrimas escorriam por seu rosto e perguntei "Como posso te ajudar?" Ela pediu carona. Destravei a porta, ela entrou e notei que estava descalça, com um vestido preto muito curto. Pediu pra seguir um homem. Perguntei se ele tinha roubado ela. "Não, é meu marido." Deixei ela perto dele, ela me agradeceu e seguiram pelas ruas gritando.

O nível de sofrimento e confusão que o amor romântico pode causar nas pessoas (não me excluindo) sempre me parece inacreditável.

21/07/2016

do sofrimento como combustível

pequenos prazeres
antes da foice

pequenas mortes
antes dos dias úteis

quantos anos gastos
esfregando a lâmpada mágica
esperando o gênio
para pedir mais lâmpadas
ainda mais mágicas?

quanto tempo de treva
até você acordar?

quanto tempo leva?

19/07/2016

o choro de todas as coisas prestes a morrer

frutos caem no telhado
acima de nossas rugas

a natureza apresenta suas sombras
e o sagrado faz as luzes do mundo
um pouco mais fracas

nessa época estranha
(que é sempre)
aumentamos o ímpeto nas distrações
mas elas também caem no telhado
como folhas
que não notamos mais

todas as distrações do mundo não adiantam
mais que um fruto podre
no telhado

cansados de tudo que nasce e morre
desperdiçaremos até quando a luz
nascendo e fazendo nascer?
morrendo e fazendo morrer?